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October 29, 2010

Saiu "Exit Through the Gift Shop" pra baixar há umas semanas, mas quis esperar pra ver no cinema. E saí boquiaberta com tanta genialidade. Se é documentário ou ficção, se Banksy é uma pessoa ou um coletivo, se Thierry Guetta existe ou não - nada disso importa. O que vale é o grande questionamento sobre a arte - seu valor, natureza, mercado, função - o papel da mídia e a necessidade desenfreada de novidades, tudo de maneira sutil e absolutamente brilhante.

Com a desculpa de ser um documentário baseado nas imagens de street art coletadas compulsivamente por um francês excêntrico em várias partes do mundo, o filme acompanha figuras-chave como Shepard Fairey, Space Invader e o próprio Banksy. Até que a mesa vira, e de repente o francês excêntrico se torna o foco das atenções, passando a produzir arte ao invés de só registrá-la - e daí entram os questionamentos, conduzidos pelo filme de maneira tão natural que a gente não consegue evitar o sorriso de satisfação.

Se Banksy for de fato uma só pessoa, é com ele que eu queria casar. Além do seu trabalho ser incrível, relevante e engajado, ainda conseguiu tirar um grande sarro do mundo da arte - com tanta eficiência e alcance quanto Andy Warhol e com mais sofisticação do que Damien Hirst. Bravo.

November 07, 2009


E quem diria que o Dennis Hopper, além de atuar e dirigir, tinha tantos outros talentos? Combinada com o lançamento de um livro de suas fotografias lançado pela Taschen, uma grande mostra de suas obras foi montada na galeria Tony Shafrazi, em Chelsea. Fiquei realmente impressionada, tanto com as fotos e pinturas quanto com os retratados. Na mesma parede, gente como Warhol, Rauschenberg, Ruscha, Lichtenstein, Rosenquist...só artistas? Não, atores também : Paul Newman, Tuesday Weld, Jane Fonda e outros. E músicos : o Grateful Dead, os Byrds, Phil Spector, James Brown, Ike e Tina...A isso tudo se junta o cotidiano de gente simples, no Harlem ou em Tijuana, e paisagens urbanas desoladas, formando um panorama de imagens que, se não tem muito de excepcional, é um registro excelente e bonito dos EUA dos anos 60 em preto-e-branco.
Clicando aqui no site da galeria, muitas fotos da exposição.

March 25, 2009

Ó, eu admito que esnobei a exposição "Van Gogh and the Colours of the Night" no MoMA ano passado. Mas já que veio pra cá, por que não ir, não é mesmo? E fui.

E aí imediatamente me senti uma trouxa, porque é um apanhado sensacional de obras com tema noturno - não só do Van Gogh, mas também de suas grandes influências, Millet e Hiroshige - e uma ótima oportunidade de apreciar quadros não muito conhecidos do holandês sem-orelha, baseados numa paleta de cores diferente dos tons solares habituais. Adorei as explicações sobre detalhes de "Os Comedores de Batatas" e das "Starry Night", mas detestei o fato delas estarem posicionadas do outro lado do corredor, me fazendo ficar de lá pra cá verificando o que estava escrito.

E a "La Nuit Étoilée" propriamente dita pode ser a mais famosa e a mais significativa, mas eu gosto mesmo é da "Nuit Étoilée sur le Rhône". Que eu não via há uns anos, já que faz tempo que eu não vou ao Orsay. Ver as duas na mesma sala foi bem emocionante.

March 07, 2009

E aproveitei que estava perto e fui ver a retrospectiva do Richard Avedon no FOAM. Como era de se esperar, incrível. Não entendo muito de fotografia, portanto adoro essas chances de ter um panorama da obra de alguém. E Avedon certamente merece ser plenamente apreciado, em tantas décadas de trabalho.
A série "In the American West" foi a minha favorita. Que imagens. Mais belas, mais poderosas que as de qualquer celebridade do século XX. Dos outros retratos, os que mais me marcaram foram os dos Beatles, do pessoal da Factory (Andy Warhol, Candy Darling, Viva, Paul Morrissey, etc), do Beckett, da Marian
Anderson e do Groucho Marx. Das de moda, a da Twiggy com os cabelos esvoaçantes é inesquecível. Mas tantas mereceriam o mesmo adjetivo. E adoro, adoro os retratos do Bob Dylan. Tão jovem, tão charmoso.
Vai até maio, e devo ir de novo.

March 03, 2009

Fui conhecer hoje um centro cultural relativamente novo, o SMART Project Space. Com cinema, salas de exposição e um bar-restaurante, ele ocupa um prédio imenso que foi um laboratório de Análises Patológicas. A exposição em cartaz é "Coalesce : Happenstance", que como diz o nome, é um coletivo de trabalhos individuais, mas pensados como conviventes. Faz sentido? O aproveitamento do espaço ficou um pouco bizarro, mas acho que funcionou. O mais interessante pra mim estavam nas três últimas salas. Coincidentemente, tudo em videoarte. Curti o retro-feminista "Consciousness, Understanding' N' Trust" da Oriana Fox, de quem eu tinha só ouvido falar, e logo de cara me lembrou dos retratos da Cindy Sherman. No site dela tem alguns trechos, vale olhar.
Outro que achei divertido foi o "the 5 Boroughs of Soul", do inglês David Blandy. Descalço, vestido de monge shaolin e munido de uma vitrolinha portátil, ele faz uma peregrinação pelos 5 boroughs de NYC atrás dos pontos mencionados em vários clássicos do soul. Despretensioso e legal.
Mas "Shut the Fuck Up", uma sequência de 3 vídeos do grupo General Idea sobre arte e sua relação com a mídia, me fez parar e prestar atenção. Achei interessante levantar criticamente a questão da "arte-espetáculo-para-consumo" e da postura/participação/motivação do artista nisso. O episódio do "Batman" que eles usam pra ilustrar é perfeito, de um concurso de arte em que o Coringa leva o prêmio tendo apresentado uma tela em branco, mas com todo um blablablá sobre o conceito - que pelo visto enganou bem o júri (que quis ser enganado). Os outros participantes não ficam atrás : um macaco que cria uma tela jogando tinta e tomates (acho), um cara pintando com os pés, e por aí vai. No link tem os vídeos online, e recomendo, nem que seja pra ver o incrível balé dos poodles, hehe. Aqui, a parte I e II:



E aqui a parte III :

January 26, 2009

"From the Abyss", Tara McPherson

Sábado à tarde na região da Benedito Calixto. Muita, muita gente na rua, dificuldade de estacionar. Mas foi por uma boa causa : a aguardada exposição da Tara McPherson na galeria Choque Cultural. Gata, talentosa e autora de figuras femininas sem coração, ela faz arte pra menininhas (e não digo isso no sentido pejorativo). Você já deve ter visto alguma de suas ilustrações lindíssimas em pôsteres de show, capas de revista e livros ou mesmo na internet.

A exposição em si é pequena, tem poucas mas bem-selecionadas obras. As minhas favoritas foram essa daí de cima e a ultra pop "Laughing Through the Chaos of It All", aqui embaixo.


A galeria mostra mais três artistas norte-americanos, Jim Houser, Doze Green e Adam Wallacavage, com trabalhos bem interessantes e distintos entre si. Aliás, tem grana sobrando? Invista em uma peça de qualquer um deles, que eu acho que ainda podem valer bastante daqui a uns anos. Você também pode comprar umas prints sensacionais por uns 150 reais de outros artistas. Ai, se eu tivesse mais paredes e mais molduras.

December 17, 2008

Em compensação, li também o fofo "French Milk", da Lucy Knisley. Lucy vai a Paris com sua mãe, e registra a viagem, suas reflexões e idéias em forma de desenho. É um carnet de voyage gracioso e franco, cheio de meninices.

E pesquisando pra saber se foi lançado no Brasil, acabei achando uma outra artista com trabalho na mesma linha, a Samanta do Cornflake. Os Toscomics são MUITO fofos e bem desenhados, num traço delicadíssimo. Valem uma visitinha (e o blog também).

November 15, 2008

E finalmente, pra acabar essa sequência de museus, teve o Guggenheim com uma exposição fantástica da ótima Catherine Opie. Nem sei de que série de fotos gostei mais : dos retratos que subvertem gêneros e definições às paisagens desprovidas de qualquer presença humana, as imagens são poderosas e marcantes. Highways e centros comerciais revelam o grafismo das estruturas urbanas, casas de pescadores no gelo cortam uma brancura etérea - lembrando Rothko - e transsexuais FTM (e toda uma comunidade queer) transmitem segurança e orgulho de suas identidades em poses ora desafiantes, ora brincalhonas. São muitos mundos, e um olhar destrinchador.

Aqui, uma pequena amostra.


Catherine Opie, "Self-Portrait", 1993

November 14, 2008

Dei uma passada no MoMA porque é um dos meus museus favoritos no mundo. Calhou de ser uma sexta à tarde, quando a entrada é gratuita, e eu já estava me preparando psicologicamente pra não perder a paciência com as hordas. Mas surpresa, o movimento estava igual a um dia normal - se bobear, até um pouco mais tranquilo. Er...crise?

Obviamente, a exposição especial estava esgotada, mas nem eu e nem minha mãe fazíamos questão anyway (er...acho que já vi Van Gogh suficiente pra 3 vidas), e o último andar estava fechado porque estavam montando a do Miró. Problema nenhum, porque dá pra só passear pelas salas favoritas e dar um oi pras obras de que a gente gosta mais (a sala do Beuys e a dos contemporâneos, por exemplo). Mas as novidades eram tantas...

* New Photography 2008 - gostei da Josephine Meckseper (a que ilustra o post - "Blow Up", de 2006): trabalho de grande impacto visual, fotos e mídias diversas, retrô e crítico ao mesmo tempo. O do Subotzky achei normal.
* Kirschner and the Berlin Street - não me tocou, mas é porque EU não morro de amores pelas cores dos expressionistas alemães em geral (Otto Dix, Max Beckmann, etc). Caras verdes, sombrias, deformadas, ick. Prefiro o cinema.
* Focus - Picasso Sculpture - essa foi uma boa surpresa : um apanhado de esculturas de várias fases do mestre, incluindo Woman's Head (Fernande).
* Pipe, Glass, Bottle of Rum : The Art of Appropriation - bem interessante, afinal acho que estamos no auge da era da apropriação e reciclagem. O que não é necessariamente ruim, visto que alguns dos artistas mais relevantes da metade do século XX pra cá são frutos desse processo (Lichtenstein, Rauschenberg, Warhol), assim como toda nossa cultura pop. E o que seria do Duchamp e seus ready-made sem a apropriação?

(adoro "LHOOQ"- enganação master ou proposta?)

* The Printed Picture - achei fascinante. Já tinha reparado em outros museus que algumas fotos expostas já aparecem como "Inkjet print" na descrição da mídia. Whoa! O MoMA preparou uma boa mostra comparativa da história da imagem impressa. Rotogravuras, silver prints, etc. Não entendo nada disso, foi bastante informativo.

November 11, 2008

Sei lá por que, nesses anos todos eu nunca tinha ido ao Whitney. Se a gente for pensar que a maioria dos meus artistas favoritos são americanos, então, fica incompreensível esse vacilo meu O_O

E lá fomos nós pro pouco explorado UES (pra mim, pelo menos - I'm a LES kind of gal) corrigir isso. O museu, assim como o Guggenheim, já é uma obra de arte em si e facílimo de ser avistado : uma grande caixa de granito cravada na Madison Ave., quase na esquina da rua 75.

Começamos pelo acervo normal : Robert Rauschenberg, Jasper Johns, Andy Warhol, Edward Hopper, Jeff Koons, Jackson Pollock, Franz Kline, Barbara Kruger, Barnett Newman e Ed Ruscha, os meus preferidos. A coleção pode ser visivelmente menor em número de obras que a de outros museus de arte contemporânea/moderna, mas vale pela representatividade e abrangência. É um crash course em arte americana do último século, o que pode ser legal pra quem quer ter uma visão panorâmica da coisa.

A sorte mesmo foi pegar a exposição especial Alexander Calder - The Paris Years. Sempre comento quando encontro alguma obra do Calder pelo mundo, porque é um artista que me fascina. Mas conhecia pouco além dos móbiles (que sempre me deixam feliz numa maneira irracional, porque são forma e cor em movimento - segundo Duchamp, "a arte de Calder é a sublimação de uma árvore ao vento"). Imaginem ver uma mostra que reúne vários dos seus retratos e esculturas em arame, seu famoso circo, as ilustrações que ele fez pra um jornal americano e vários de seus mobiles e stabiles. Sem contar as pinturas, que por algum motivo talvez não sejam tão conhecidas quanto os trabalhos tridimensionais. Mas são essenciais pra se entender os mobiles, especialmente as feitas logo após ele ter conhecido Mondrian e começado a se aventurar no abstracionismo. Morri.

Alexander Calder, "Goldfish Bowl, 1929" © 2008 Calder Foundation

(vai até 15 de fevereiro, quem puder, vá!)

November 08, 2008

Ok, cheguei nas 38 horas sem sono e aí capotei. Dormi doze horas e tô ótima.

O legal de ir todo ano a NY e a SP é acompanhar as mudanças - restaurantes que abrem, prédios que brotam, lojas que fecham. A Europa, nesse aspecto, é tãããão estável e sonolenta...uah.

O New Museum of Contemporary Art é um bom fruto dessa renovação constante. Aberto há menos de um ano, em plena Bowery e em meio a casas de equipamento para restaurantes e comércios chineses, é uma construção absurdamente linda, por dentro e por fora.


A exposição principal até janeiro do ano que vem é da interessantíssima Elizabeth Peyton. Em meio ao ambiente completamente branco, os rostos de figuras como Kurt Cobain, Jarvis Cocker, Sid Vicious, John Lydon, Georgia O'Keeffe, Patti Smith, Pete Doherty, Jackie Kennedy, David Bowie, os irmãos Gallagher e outros contemplam os visitantes com expressões serenas e indiferentes. Alguns baseados em fotos, outros esboçados ao vivo, num traço incrivelmente delicado, que contrasta com as cores vívidas que usa. Figurativa, urbana e pop, é uma artista bastante intrigante - tanto pela escolha dos temas quanto pela forma de retratar : referências clássicas e modernistas com o vigor do rock 'n roll. Literalmente, arte contemporânea.

Infelizmente, a outra exposição, da Mary Heilmann, é daquelas que fica melhor em catálogos e livros. Algumas obras são boas, mas em geral não pude evitar pensar: "isso eu também faço". Ao vivo achei clichezento e nada empolgante, e bem aquela imagem de arte moderna que alimenta o preconceito que a maior parte das pessoas têm : a de que não significa nada.

Mas enfim, se forem visitar o museu (devem!), o façam aos fins de semana, quando o magnífico Sky Room está aberto ao público. Inteiramente branco, futurista e clean, tem uma vista fenomenal da cidade. Dar uma festa lá deve ser incrível.



September 24, 2008

Fui ver 4 exposições temporárias beeeem interessantes no Museu Van Gogh: um apanhado dos trabalhos de impressão do Werkman, uma seleção de pinturas suprematistas do Malevich, a retomada das naturezas-mortas por Van Gogh e outros pintores do séc. XIX e, finalmente, uma mini-instalação sobre Anton Mauve, com quem Van Gogh estudou pintura por um curto período. Essa última vale principalmente por "Souvenir de Mauve", um quadro que eu não conhecia e me impressionou de tão lindo.


"Souvenir de Mauve", Vincent Van Gogh


Sobre o Malevich, nem preciso falar muito - é só lembrar da influência da sua obra sobre os modernistas brasileiros : Tarsila, Lasar Segall e Di Cavalcanti, principalmente.


Kazimir Malevich, "Taking in the Harvest", 1911-12

O mesmo vale pro Werkman e o design gráfico. Usando stencils, tipografia e rolos, as druksels de Werkman marcaram um estilo que remete à arte naïf e às ilustrações da literatura de cordel do Brasil. O trabalho tipográfico me lembrou o grande Saul Bass, com suas linhas fortes e geométricas, com cores primárias, e várias outras escolas de design dos anos 40 e 50 (tentei achar umas imagens pra ilustrar e não achei - se eu estiver falando bobagem, favor apontar)



As naturezas-mortas, então, foram impressionantes - principalmente porque eu não gosto do gênero no séc. XVII. Mas as releituras por Fantin-Latour, Corot, Manet e Courbet me tocaram. Mesmo. Não que eu não admire o super-realismo alcançado por alguns dos artistas, mas realmente as versões do século seguinte são mais interessantes.

Enfim, quem vier pelos próximos meses verá. E eu amo meu Museumkaart.

September 19, 2008



E o Boijmans van Beuningen mostra porque é um dos meus museus favoritos no mundo : além do imenso e abrangente acervo, até outubro hospeda uma retrospectiva da incrível Yayoi Kusama. Obsessiva, vanguardista, abusada, absurda. Curti imensamente as séries baseadas em infinitos, e sim - fui arrebatada por "Fireflies on the Water", de 2002, definitivamente minha obra favorita nesta exposição. Mas o que me impressionou foi a consistência impressionante no trabalho dela : dos anos 60 aos 00, tudo é igualmente impactante, e na verdade até um pouco atemporal. Resquícios de pop art e minimalismo poderiam soar datados ou ingênuos hoje, mas quatro décadas se passaram e tudo ainda tem um ar fresco e bem contemporâneo. Artistas modernos que conseguiram essa façanha? Não muitos.


"Fireflies on the Water", 2002, Yayoi Kusama - imagem do Whitney Museum of American Art

Enfim, eu poderia ficar falando horas aqui, mas acho que o Superchunk resume bem em "Art Class (Song for Yayoi Kusama)"



Here we go in spurts
The colors ready to burst
And you may notice a shaking in your eye
Metaphors the worst
Well are you being driven or do you drive?
On a trip between two points and your infinity
Now, obliterate yourself from the scene
But please do not forget

Cover me with spots
Black and red dots
Till I'm clouding up your visual field
Bare assed and beautiful
You're climbing on your art like a shield
Now I want
I say
I do
Everybody dance now

And welcome to art class
Forget your acid, free paper and glass
Welcome to art class
Lead blind
Stripped bare of the past
Why so serious?
Why so serious, when it's only your life that's at stake?
Why so serious?
When your life is the art that you make
Life is the art that you make

Sell anything you want
But it's worth no more and no less than a kiss
Try not to represent even that
Cause this moment is all that it is
And a garden in glass there is a red plastic tree
So shit in a can but your art is not free
I say
I want
I do
And everybody dances with me

And welcome to art class
And yes it does involve shaking your ass
Welcome to art class
Always keep your face to the blast
Why so serious?
Why so serious, when it's only your life that's at stake?
Why so serious?
When your life is the art that you make
Life is the art that you make

April 08, 2008

No sábado o tempo resolveu ficar chuvoso. Assim, acabamos é indo aos Musées Royaux des Beaux-Arts, que incluem o museu de arte antiga e o de arte moderna. Como o de arte moderna ia fechar das 13h às 14h pra almoço (wtf?), começamos por lá.

Coleção bem interessante, boa pra quem quer se aprofundar um pouco em arte belga. Permeke e Rik Wouters eram dois que eu não conhecia e me chamaram a atenção. Traços fortes, robustos - um na pintura e outro na escultura. Spilliaert também achei bastante interessante, algo entre Hopper e DeChirico. Alguns Magritte bem legais, vários Marcel Broodthaers (dos 3 museus em que vi obras dele, este é o que tem o maior número e as mais interessantes).

Mas a atração do museu pra nós foi mesmo o...elevador. Sério, o elevador tem assentos. Cinco ou seis de cada lado, confortáveis, parece uma salinha de espera. Achamos engraçadíssimo e o usamos duas vezes. Ou três, talvez. Ha.

Pro almoço, consideramos o café do museu. Parecia ótimo, mas movimentado demais. Fomos pra rua e encontramos o recomendadíssimo Le Pain Quotidien. Padaria chique e restaurante orgânico caminhando lado a lado, com mesas coletivas e serviço rápido. Tartines, saladas e docinhos bem interessantes. Pedi a tartine de frango defumado, abobrinha grelhada, tomates e coentro, ótima.



Voltando ao museu, terminamos a parte moderna (tinha até uma foto enorme de SP, do Thomas Struth. Fiquei emocionada quando reconheci o prédio do Banespa, uma placa do SESC e o anúncio de cuecas) e fomos para a de arte antiga. Eu estava ansiosíssima pra ver o que eles tinham do Hieronymus Bosch e do Pieter Brueghel, o Velho. Do primeiro, há três obras, mas o incrível tríptico "The Temptation of St. Anthony" é realmente a imperdível. Do segundo, o mais interessante é "Le Massacre des Innocents", que tem uma releitura feita por seu filho, Pieter Brueghel II, exposta na mesma sala. Fiquei indo e voltando dos dois quadros pra comparar.

Nesse dia, entramos também na Notre-Dame du Sablon, uma igreja bem gótica e com vitrais lindos. A parte aberta a circulação é pequena e apertada, mas achei a fachada a parte mais digna de nota - muitos detalhes e decorações.

Conhecemos também a grande Catedral de St.Michel e Ste.Gudule - imensa, com traços de várias épocas. Os restos da igreja romana sobre a qual foi fundada no século XIII podem ser visitados, descendo-se uma escada. Ou pode-se ver de cima, por uma gradezinha vazada no chão da catedral.

De lá, fomos fazer compras : CDs na Caroline Music, atrás da Grand Place (a variedade não é grande, mas dá pra encontrar coisas legais), e depois andamos pela rue Neuve, a rua comercial. Muita gente, muitas barracas de gaufres, e no final dela o shopping center City2. Igual aos nossos no Brasil, e tem uma Fnac no último andar. Se não estivesse tão cheio, eu teria vasculhado bem mais. Mas ver aquele povo todo de lá pra cá é meio desanimador.

Demos uma olhada rapidinha na igreja Notre Dame du Finistère, perdida no meio das lojas da rue Neuve. Pequena, e pelo jeito bastante frequentada pelas pessoas do bairro. Fomos então encontrar o Antonio em frente à Monnaie, e depois de andarmos por trás da igreja Sainte-Catherine, ele nos levou para jantar no ótimo Fin du Siècle, um restaurante discreto, informal e movimentado. Pudera, a comida é maravilhosa (stoemp com saucisses, incrível), o público jovem e moderninho, o ambiente festivo e barulhento.

Depois passamos pela rue Antoine Dansaert, que concentra lojas descoladas e estilistas novos, e acabamos a noite no Le Cercle des Voyageurs, um bar que seria frequentado pelo Indy, se ele existisse de verdade. O tema é, obviamente, viagens. Tem poltronas confortáveis, chás e bebidas de todos os lugares. Muito, muito agradável.

No dia seguinte fomos conferir o mercado de pulgas da Place du Jeu-du-Balle. Pertíssimo do hotel, fica no bairro de Marolles, cheio de lojas de decoração e outros negocinhos descolados em meio a casinhas simples. Pra quem procura roupas e móveis usados ou cacarecos em geral, pode ser interessante - mas o cheiro de coisa velha domina, hahaha. Acabamos comprando uns pôsteres metalizados de produtos vintage.



Dali, passamos pelas nossas primeiras fachadas ilustradas com personagens de quadrinhos e chegamos à igreja Notre-Dame de la Chapelle, uma construção imensa e um tanto frankestêinica, mas bonita. Ela abriga um memorial a Pieter Brueghel, o Velho, e só por isso já vale a visita. Emocionei.

Em frente à igreja, garotos fazem manobras de skate e bicicleta numa pista bem legal e aberta. Um contraste interessante de paisagens.
De lá, chegamos ao chique Sablon, passando por uma ruazinha pontuada de restaurantes bonitinhos, a rue de Rollebeek. Passamos na loja do Pierre Marcolini para admirar os chocolates e docinhos expostos em vitrines chiquérrimas. Como esperado, turistas japonesas comprando caixas e caixas de bombons, atendidas por moças trilíngues elegantemente de preto. Um pouco de exagero, não?

Voltamos ao hotel, para encontrar a Ana C., amiga da Ana L. que vinha de Turim.

(adendo : o que eu conheço de Anas só se compara ao número de Cris. Agora fechou, conheci uma Ana Cris! E tenho que tentar não confundir Ana C. com Cris A.)

Saímos andando e fomos almoçar no 't Kelderke, um estaminet bem na Grand Place. Com esse endereço, fiquei bem temerosa de ser um tourist trap, mas nada. A comida é ótima e típica, o atendimento é simpaticíssimo e o lugar é um charme - uma cave do século XVI. Experimentei as anguilles au vert (enguias em molho verde de ervas), mas tudo no cardápio era tentador.

Para aproveitar o final da tarde, fomos ao Bozar, ou Palais de Beaux-Arts. Escolhemos a exposição "Paul Klee : Theatre Here, There and Everywhere", e lá fomos nós atravessar a parte em reformas do museu.

Paul Klee sempre teve uma ligação especial com o teatro e a música, e boa parte da sua obra aborda essas referências, além da dança e do circo. Verdadeiramente, um homem da arte, que a percebe no dia-a-dia. A parte da música é a mais fascinante - como seu estilo geométrico consegue traduzir som em imagem, e como em contrapartida, Pierre Boulez interpretaria Klee em som. Adorei ter visto também um vídeo de ballet méchanique, obviamente baseado nos balés triádicos de Oscar Schlemmer e Bauhaus. Muito bom.

Agora, a loucura mesmo é a loja do Bozar. Caceta, é um exercício de restraint não se empolgar com a variedade de livros (pintura, artes gráficas, fotografia, música, culinária, teatro, grafite, moda e o que mais chegar) e CDs e DVDs. Passaria fácil umas boas horas ali.

February 19, 2008

E daí chegou o Antonio pra passar o fim-de-semana. Como ele e o Paulo se deram bem, foram dias bem agradáveis. Comida, passeios, sol, frio, conversas.

Fomos ao Stedelijk ver a exposição dos 60 anos da Magnum. De imagens icônicas que já estamparam jornais do mundo inteiro a cenas cotidianas de lugares exóticos, é uma grande retrospectiva da história do século XX, retratada por alguns dos grandes fotógrafos do nosso tempo : Robert Capa, Cartier-Bresson, Eve Arnold, Martin Parr, Bruce Davidson e tantos outros. Recomendo ir com bastante tempo para se deixar invadir pela torrente de informações que são as projeções de parte do portfólio da agência. Fica até maio de 2008 - depois não diz que eu não avisei.



No domingo Antonio voltou pra Bruxelas, e na segunda o Paulo pra SP. E será que eu agora consigo colocar o blog em dia e finalmente escrever sobre outras coisas? Stay tuned.

February 15, 2008



No dia seguinte, fomos ao FOAM ver a grande exposição do Weegee, sobre a qual a Ana já escreveu tão bem no blog dela que nem vou me dar ao trabalho :)


...Mentira, tenho que comentar. O Weegee podia não ser um mestre da técnica ou ter uma visão artística per se, mas tinha o grande talento de enxergar uma grande foto em momentos fugidios, na linha do Cartier-Bresson. Daí o seu grande sucesso como fotojornalista, flagrando cenas e reações da noite de NYC tão ricas que, congeladas, fornecem tantas leituras e elementos de apreciação (composição, enquadramento, tema) quanto uma obra planejada e montada. Em poucas palavras, um fotógrafo de grandes sacadas.

(já os retratos posados, bem...valem como registro, mas definitivamente não são o melhor dele)

January 28, 2008

Ainda nesse dia, fomos ver a exposição da Yoko Ono no CCBB. Achei algumas coisas bem interessantes, no geral. Comentando com algumas pessoas depois, o termo que mais usado pra descrevê-la foi "ingênuo". De fato, mas a mostra é uma retrospectiva, e parte dos trabalhos data dos anos 60. Arte conceitual em clima de pacifismo e auto-descoberta. É datado, e fora do contexto da época, perde a força mesmo. Se a questão é força, uma das séries de que mais gostei, "Objetos de Sangue", é mais recente e mais impactante - mas achei a parte "ingênua" da exposição cativante mesmo assim. É um alívio de vez em quando ver algo que não seja pesado ou opressivo. A gente cansa de muito questionamento às vezes.

Em resumo, não é imperdível, mas se puder ver, vá.

Depois, fomos ao Salve Jorge do centro pra fazer uma pausa, e caiu o mundo. Sério, tempestade daquelas de ventania. E choveu um puuuta tempo. E aí, quando parou, cismamos de ir pra casa de ônibus (sendo que o metrô estava ali do lado ¬¬) e fomos andando ao longo do Anhangabaú. Noite escura, já, as ruas estavam tranquilas, o Municipal lindo todo iluminado. Mas o ponto perto da São Francisco estava escurésimo, com dois ônibus que não tinham cara de que iam sair logo. Aí andamos mais um pouco até o ponto no começo da Brigadeiro. E esperamos mais, mas pelo menos num lugar mais iluminado. E o ônibus subiu a Brigadeiro. E quando queríamos descer, antes da Paulista, ele não parou, atravessou a avenida e só puxou o freio umas 3 quadras abaixo.
Nessas, a gente tinha de encontrar o Rico e a Kris em Higienópolis, mas o meu mau-humor e o fato de já serem quase dez da noite, estarmos molhados, suados e cansados deram uma grande bola preta pro compromisso e fomos é mostrar comida mineira pro Quim e pra Sri ali perto de casa mesmo.

November 28, 2007

Ah, esqueci uma parte da exposição - a sala Silver Clouds. É que essa instalação já tinha visto em SP há uns anos, no SESC Pompéia, e muuuuito melhor apresentada. Aqui, os balões ficaram apertadinhos num canto, e poucos em número. Que sem-graça.


November 27, 2007

Não poderia haver lugar mais adequado para abrigar a fantástica exposição "Andy Warhol : Other Voices, Other Rooms". O antigo prédio dos Correios, uma construção feia, desgastada e espaçosa ao lado da Estação Central, dá o tom ideal da NY da Factory.

A primeira sala conta uma vida em fotos : Warhol criança, jovem, em drag, antes e depois da plástica no nariz, retratado por Avedon, Mapplethorpe, auto-retratos, fotos de festas e a infame tentativa de assassinato por Valerie Solanas, como garoto-propaganda, com Miles alguns dias antes de falecer. Nas outras paredes, projeções de 4 filmes sobre o artista : dois Jonas Mekas, um Marie Menken e o famoso "Andy Warhol's Explosive Plastic Inevitable", de Ronald Nameth. Caos de imagens em p&b ao som de Velvet Underground.

A sala Cosmos é a ala das artes gráficas : mas aqui, as latas de sopa e Marilyns coloridas não são a grande atração, e sim a chance de ver gravuras, rabiscos, contatos, recortes de jornal, capas de discos, polaroids e até uma coleção da revista Interview, criada por Warhol como um zine sobre cinema e que se tornou um ícone fashion nos anos 70 e 80 (tinha até no Brasil, lembram? Não sei se era related ou só cópia) com as suas capas lindíssimas. Além disso, há estações com diversos vídeos realizados na Factory - os Factory Diaries - registrando desde processos de criação a uma visita da Liza Minelli, passando por uma "carta a Man Ray", onde ele não sabe mais o que falar depois de um ponto e repete "Man Ray" sem parar pra preencher o tempo. E cabines de áudio, com gravações de conversas variadas e, claro, uma gravação de Nico cantando "I'll Be Your Mirror", nonstop. Confesso que parei mais de uma vez nessa :-).

Mas o melhor ainda não era isso! A sala seguinte, Filmscape, exibe 19 filmes dentre a extensa produção do papa do pop. O clima da instalação é de uma certa cacofonia, dos fragmentos de áudio que escapam das estações e as dezenas de imagens flutuando em telões iluminados, misturados aos comentários assombrados ou divertidos dos visitantes. Fui direto ao centro e me sentei diante do emblemático "The Chelsea Girls", exibido segundo o conceito original - tela dupla, com duas "histórias" exibidas simultaneamente e lado-a-lado. As histórias não têm relação entre si e nem nexo - a maioria são improvisações on-camera (recorrentes em toda a filmografia do Warhol), mas visualmente são hipnotizantes. Assisti a uma boa meia hora (são mais de 3h), e por sorte peguei justamente a da Nico e a do Gerard Malanga.



Mas os outros filmes são igualmente mandatórios - "The Naked Restaurant", onde a Viva comanda um restaurante...nu. Todo mundo nu, discutindo assuntos do dia, como Cuba e Castro; "Kitchen", com a Edie Sedgwick mostrando os pernões numa discussão nonsense numa cozinha; "Mrs. Warhol", estrelando a mãe do Warhol, o imperdível "The Velvet Underground & Nico: A Symphony of Sound", mostrando uma jam do VU na Factory interrompida pela chegada da polícia (chamada pelos vizinhos que reclamaram do barulho); "Henry Geldzahler", uma "entrevista" de 99 minutos, onde Warhol nem esteve presente na maior parte do tempo, e Geldzahler foi deixado em frente à câmera - interagindo com ela no começo, e depois simplesmente parado até o filme acabar (gênio, analiso melhor em outro post); e um dos que achei mais brilhantes, "Outer and Inner Space", que coloca a Edie Sedgwick falando, tendo ao fundo/ao lado uma tela mostrando a própria numa outra gravação, falando outras coisas. Isso tudo gravado por duas câmeras diferentes, portanto a imagem é quadruplicada. Peguei um trecho em que a Edie "gravada" espirra, seguida de um espirro da "real" e achei incrível, ensaiado ou não.



Acabou? Não! A sala seguinte, TV-Scape, mostra os 42 episódios de uma série de TV criada pelo Warhol de 79 a 87, "Andy Warhol's TV". Esses programas são a maior síntese da cultura pop do século XX, hands down. Todos os nomes da música, moda, cinema, TV, literatura e arte que conhecemos estão lá : Debbie Harry, Marc Jacobs, Yoko Ono, Rob Lowe, Diana Vreeland, David Hockney...you name it. Até a Betty Lago.

Mas o ícone máximo do pop sempre será o próprio Warhol. Até sua morte, não existia veículo que ele não tivesse explorado, movimentos que ele não tivesse influenciado, personalidades que ele não tivesse conhecido. Faz vinte anos de sua morte, e ainda há tanto o que explorar em sua extensíssima obra que eu poderia falar aqui horas. Certamente essa exposição é uma das mais completas fora do The Andy Warhol Museum, e uma grande chance de sentir um pouco da NY fervilhante e criativa daqueles anos loucos.