October 05, 2007

Ainda estou nas últimas páginas, mas "Underground", do Haruki Murakami, já é um livro que recomendo fortemente.
Quando do ataque com gás sarin ao metrô de Tóquio em 1995, perpetrado por membros da seita Aum Shinrikyo, muito se noticiou sobre a tragédia que afetou milhares de pessoas - mas como sempre, em geral a mídia se esquece de que cada vítima é um ser humano, com vida, família, história e sentimentos. O Murakami resolveu levantar esse lado do desastre e se pôs a tentar entrevistar os sobreviventes, pra mostrar a visão de quem estava lá - o que pensaram, o que sentiram, o que fizeram. Não surpreendentemente, foi difícil. A cultura japonesa preza a discrição, o abafamento do escândalo, e ele mal conseguiu uns 60 depoimentos.
A versão traduzida para o inglês só traz metade dessas histórias, mas são mais do que suficientes para revelar aspectos da sociedade que, para quem vive no mundo ocidental, parece tão enigmática às vezes. Eu mesma me surpreendi ao saber que lá tanta gente que se programa para chegar pelo menos uma hora antes do início do horário de trabalho. É o mínimo esperado. Também fiquei chocada com o pensamento fixo de algumas vítimas que, intoxicadas com o gás, mal conseguiam andar ou falar : "tenho que chegar no trabalho a tempo". Fiquei com pena de quem vive sob tanta pressão.
Também é comovente o quanto as vítimas se sentiram desamparadas, tanto pelos serviços públicos e de saúde quanto por outros seres humanos. Mais de um relatou sua indignação por tanta gente passando visivelmente mal ser ignorada pelos transeuntes, na mais clara demonstração de "isso não é meu problema, não devo me envolver". Fora o despreparo dos hospitais, que não levaram a sério os primeiros casos que apareceram por não terem idéia do que estava acontecendo, e a falta de ambulâncias.
Mas o pior mesmo é ler a história de uma vítima fatal, contada pela viúva e pelos pais. De cortar o coração.

Como se não bastasse ter conseguido elaborar esse retrato bastante inesperado do Japão de hoje, o autor dá um passo adiante e entrevista também o lado do perpetrador. Sem julgamentos, conseguimos uma olhadinha na mentalidade de alguns membros da seita. Os pontos em comum de seus perfis salta aos olhos - pessoas inteligentes, em busca de respostas e beirando a sociopatia. E acima de tudo, que encontraram no líder do culto, Shoko Asahara, uma figura em que podiam depositar suas vidas - o peso de tomar decisões e responsabilidades não era mais deles, mas do grupo. Assustador e revelador.

Procurem ler, vale a pena.

6 comments:

eu said...

Oi, vou ler esse livro, tem por aqui no Brasil? Indico um: Cidade do Sol ( A Thousand Splendid Suns) que acabei de ler e gostei muito, é do mesmo autor de O Caçador de Pipas. Ah, eu sou a Julia, irmã do Antonio...

Galaxy Of Emptiness said...

Putz, eu quase comprei esse livro em Paris!

annix said...

Obrigada pela recomendação, Julia, vou procurar :)
Ix, nao tinha pensado se o Underground foi lançado no Brasil. Mas como vc lê em inglês certamente conseguir uma edição inglesa ou americana não vai ser difícil.

Ana, vc quer que eu te leve um exemplar? :)

Gal said...

Menina, eu TENHO que ler esse livro. Vou dar um jeito. Murakami é um dos meus prediletos. E, com esse tema, não posso deixar de ler. Isso sim parece uma tese, e de sociologia.
Mas eu queria a versão completa...

Beijos e namarië.

Tati said...

Achei seu blog por acaso e confesso que estou adorando os posts... e foi irresistível não vir aqui comentar. Adoro Murakami. Pena que eu conheça poucas pessoas que conhecem a sua literatura... adoro a Midori, do Norwegian Wood.

Annix said...

Ô, obrigada tati! :)
é, Norwegian Wood é o correspondente japonês do High Fidelity, heh.