December 31, 2007

Putz, não liguei pra ninguém ainda. Mal cheguei e já tô na correria planejando jantar de fim de ano, visita da Muié e do Joaquim e Sri, compras no Mercado Municipal e na Liberdade - nunca vi a Galvão Bueno tão entupida de gente. Really.

Mas está sendo divertido, light e sem stress. O que é um ótimo jeito de finalizar um ano que teve bons momentos no geral, mas que pareceu a parte 2 de toda trilogia cinematográfica - uma certa enrolação na narrativa pra dar uma esticada e vários ganchos pra um desfecho na parte final.

Vim pra SP duas vezes, fui a Paris duas vezes. Também Londres, Glasgow, Edinburgh e NYC. Ah, e Bruxelas. Conheci a Ana, o Fabio e o Thiago. Vi muitos filmes, alguns shows muito bons, li paca, exposições ótimas. Descobri a Cris A. , o Hector e a Andrea pelos blogs, mantive contato com quem eu queria e dispensei o supérfluo.

Thank you 2007!

December 28, 2007

Cheguei em SP! Calor e sol, e tentando não derreter.

Tô arrumando as coisas por aqui, depois vou entrando em contato com todo mundo.

December 23, 2007

Natal é a época em que os solitários de verdade se revelam.

E pensando neles, neste meu primeiro Natal em Amsterdam (nos outros consegui escapar pra SP) resolvi fazer algo amanhã, dia 24. Não chamo de ceia, porque acho passé. Vou montar uma mesa de comidinhas e pedir pra todos os solitários sem família desta cidade trazerem bebidas. E eu e Akira vamos passar a noite obrigando os outros a aturar o nosso gosto musical.

There's no such thing as a free lunch.


(passei a tarde inteira na cozinha, jeeeeesus - patê de berinjela, crostini de feijão branco com alecrim, tabule, mini-quibes, molho de tomate e deus sabe mais o quê)

December 21, 2007

Pra um fish 'n chips perfeito, o negócio é o seguinte :

4 filés de peixe branco (bacalhau, merluza, sola, whatever)

1 xícara de farinha de trigo
1 xícara de cerveja
1 colher de chá de sal
1 colher de chá de baking powder (fermento Royal)

Misture os 4 ingredientes acima até resultar numa massa líquida, com a consistência de um milk-shake ralo.

Prepare num prato raso uma mistura de farinha de trigo, sal, pimenta e páprica. Passe os filés de peixe nessa farinha, e depois na massa de cerveja. Escorra o excesso e jogue em óleo bem quente. Frite até dourar.

3 batatas grandes, cortadas em palitos

Pré-cozinhe as batatas cortadas no vapor com um pouco de sal (ou em água mesmo, sem que fiquem muito macias). Frite em óleo bem quente.

E pronto - melhor que o chippie da esquina. Sirva com molho tártaro ou vinagre e sal.

O peixe deve ficar com uma casquinha fina e crocante, e as fritas douradas por fora e macias por dentro. Não tem segredo.

Então, o Hector gentilmente me convidou pra contribuir pro coletivo Goma - espero estar à altura. Cultura pop na veia, escrito por gente ligada como o próprio Hector , escritor, quadrinhista, DJ e parceiro for life da conectadíssima Flávia Durante, e o Thiago Baraldi, que esteve aqui em Amsterdam estes dias, e é gente boníssima, relax e informado - tudo que é legal. Frequentem, comentem, mandem dicas! :)

funny pictures

I wish.

December 20, 2007

Quando falam de Cronenberg, a primeira coisa que me vinha à mente era "Scanners - Sua Mente Pode Destruir". Agora, devo dizer que será "Eastern Promises", fácil um dos melhores filmes do ano. Em poucas palavras e tentando não ser spoiler: Anna (Naomi Watts), uma parteira que trabalha num hospital em Londres, subitamente se vê envolvida no pior do submundo londrino - máfias russas, turcas e chechenas.

(TUDO BEM, eu confesso - fui assistir só porque tem o Vincent Cassel. Uh!)

Dou a vocês três razões para correr pro cinema quando estrear no Brasil (fevereiro de 2008, segundo o imdb):

* O elenco é primoroso, direção precisa e direta, o clima de tensão e medo domina sem apelações.
* O talento para idiomas do Viggo Mortensen e do Vincent Cassel garante boa parte da autenticidade do filme. O sotaque russo de Viggo torna o personagem Nikolai absurdamente real, e o Kirill de Cassel revela a dualidade de quem tem uma língua-mãe e uma língua adotada. E o poderoso chefão de Armin Mueller-Stahl é assustador em toda sua simpatia.
* As cenas de violência não são gratuitas - e, apesar de fortes, são importantes e fundamentais para se entender o funcionamento dessas famílias do crime organizado.


Mas se isso não bastar, deixa eu dizer que o Viggo tem uma cena de luta longuíssima INTEIRAMENTE...nu. Em pêlo. Gente, eu juro que não vou dormir esta noite. Af, vai ser HOMEM assim lá na pqp. Testosterona gritando! (e a minha progesterona gritando em resposta, ai)



Vinz e Viggo - Deus existe



Começa hoje o festival De Roze Filmdagen, a mostra anual de cinema gay daqui. Mas o post tá lá no GOMA!

December 19, 2007

Fui assistir a "Enchanted" atraída pelo trailer, onde o Patrick Dempsey diz pra princesa prestes a expressar seus sentimentos musicalmente : "Não, não cante". É o que eu sempre tive vontade de dizer pra TODOS os desenhos da Disney pós-1970 - me senti compreendida.

E por uma boa parte do filme, o que rola é essa auto-paródia divertida mesmo. Do conto de fadas clichê (Bruxa? Check. Animaizinhos da floresta? Check. Cavalo? Check) ao choque cultural quando os personagens se vêem perdidos no mundo real - cuja entrada é um bueiro em Times Square (how appropriate!), é um alívio ver que o gênero sabe rir de si próprio, um dinossauro no século XXI. O elenco é charmoso, e o James Marsden continua mandando bem. E o Patrick Dempsey é tão bom de se olhar...

(esse é um exemplo de homem que fica melhor com o tempo - assim como o Hugh Laurie)

Depois, vira um filme romântico comum, e o encanto acaba. Mas foi bom enquanto durou. Mesmo que não tenha sido pra sempre.

December 18, 2007

A cozinha asiática, diferente da francesa - exata e com medidas precisas - é toda baseada no "olho" e no paladar. Não adianta pedir receitas pras mães e avós japonesas, coreanas, chinesas, vietnamitas, tailandesas. Elas sempre vão dizer - põe isso, um pouco daquilo, prova e faz assim. Mas nunca vão dar medidas exatas e técnicas certeiras. Nada diferente da nossa cozinha brasileira, aliás. Ou alguém vai me dizer que a avó mineira ou pernambucana media o sal em colheres de chá? Tou pra ver uma medida mais subjetiva que a famosa pitada.

(na verdade, acabei de perceber que as única cozinhas que exigem precisão são a nouvelle cuisine e a gastronomia molecular - o resto, como todo elemento cultural, é passado no boca-a-boca, de forma quase instintiva - a gente aprende observando, provando e lembrando)

Assim, o jantar foi completamente étnico, mesmo nenhum de nós dois tendo sangue chinês. A gente simplesmente sabe que a mistura de gengibre, cebolinha e shoyu tem resultados pra lá de prazerosos. E assim, refogamos uns dois ou três dentes de alho e meia cebola (ou uma inteira - eu disse, nada é exato) no óleo. Jogamos uma pimenta vermelha picada, gengibre ralado ou fatiado e deixamos soltar o aroma. Uns cogumelos (shiitakes, champignons de paris, qualquer tipo), fatiados fininho. Acrescentamos camarões sem a cabeça e deixamos fritar até mudar de cor. Hora de colocar os noodles (se semi-prontos, colocar direto do pacote - se secos, cozinhar conforme as instruções até o ponto antes do al dente, escorrer e adicionar - pode ser até miojo) e uns dois ou três ramos de cebolinha cortados em pedaços grandes na diagonal. Temperar com shoyu, uns dois jatinhos de óleo de gergelim e um tiquinho de açúcar, e mexer. Enjoy.

Fui ver "The Golden Compass" por mera curiosidade. Não conheço a obra em que foi baseado, mas já senti que deve ser algo mais complexa e dificilmente bem adaptada para o cinema. Parte da trama e da importância dos personagens se perde na tentativa de se condensar a história em duas horas de filme - diferente da trilogia LOTR, por exemplo, que pode ser compreendida perfeitamente sem o respaldo da leitura prévia dos livros. Aqui, o que restou foi o elemento de fantasia : universos ocultos, bruxas e lutas de ursos polares (lindos, aliás).

Algumas idéias são interessantes, e baseadas em antiquíssimos conceitos de espiritualidade - como os daemons, representações da alma em forma de animais. O site oficial tem um extra bonitinho, onde você pode descobrir qual o seu, de acordo com a sua personalidade. O meu? Acho que bateu perfeitamente, e ser um gato preto (chamado Leonidas!) não poderia ser mais perfeito.




No mais, é um filme bonito visualmente, razoavelmente inócuo e facilmente esquecível. And Nicole Kidman is scary.

December 17, 2007

"My Blueberry Nights" é a primeira incursão do Wong Kar-Wai em inglês, com atores não-chineses. Pouco importa, porque em qualquer idioma seria igual.

A cinematografia e o roteiro lembram um dos trabalhos primordiais, "Chungking Express" - o mesmo universo urbano de solitários, desiludidos e abandonados pelo amor, o clima melancólico de olhares longos, as cores quentes preenchendo os silêncios. Os elementos que se repetem : o café, as chaves, o policial, os encontros ao acaso. As duas cantoras nos papéis principais - Faye Wong e Norah Jones.

Quase um quadro de Hopper. A vida vista pela vitrine.

Não é o melhor do Kar-Wai. Mas é muito bom. David Strathairn tem um personagem incrível, o melhor de todos. Com a Rachel Weisz linda e vulnerável, eles fazem o melhor arco narrativo do filme, o mais intenso. Natalie Portman é sempre eficiente em ser adorável e ambígua, e a cereja do bolo é a curta participação da Chan Marshall (e claro, Cat Power na trilha). A Norah Jones não precisa atuar muito - ela é o fio condutor, a escada, o pano de fundo para cada história. Até para a própria. Seus sentimentos são óbvios - os outros é que são um mistério.

Aren't they?

December 15, 2007

Fui assistir a "Bee Movie" meio sem saber o que esperar. E fiquei confusa. Abelhas antropomorfizadas - uma delas sendo o Seinfeld - numa história cuja mensagem final parece ser : "Não vá contra sua natureza, porque será desastroso".

Mas a abelha-Seinfeld vai completamente contra e se dá bem. Inclusive, só ela vai completamente contra. O resto das abelhas volta a trabalhar feliz e contente na sua anonimidade e produção em massa.

Oh.

Qual é a mensagem, então? "Apenas um pode ser especial e escapar de um destino monótono, os outros que se conformem"?

"Não faz mal o seu trabalho ser repetitivo, pouco desafiador e massificante - in the big picture, faz diferença - pense no social"?

"Se você produz mais do que consegue consumir, não deve se importar que outra espécie comercialize esse excesso e não lhe repasse a renda"?

"Humanos e abelhas podem conviver bem - inclusive formando sociedades"?

"Troque seu namorado chato humano por uma abelha"?

As you see, disturbing - to say the least. Nem as poucas boas gags nem as participações especiais despropositadas salvam. A animação da DreamWorks tenta ser Pixar, mas não consegue.

Z-movie, isso sim.

Na quarta fui ver a dupla franco-germânica mais charmosa do pop, o StereoTotal. Na sala menor do Paradiso, toda a população hip da cidade dançava espremida hits como "Cinémania", "Everybody in the Discotheque" e outras pérolas dos álbuns "Discotheque", "Do The Bambi" e "Paris Berlin", o mais recente.

Eu adoro a aleatoriedade da Françoise, que passa do electro ao french pop 60's sem hesitar, apoiada pelo Göring e suas bases que lembram Kraftwerk, new wave, blips e blops espaciais e Sex Pistols. Sem contar as letras nonsense em francês e alemão altamente viciantes naquela voz fofa. Amo. Nem lembro mais como e quando os ouvi pela primeira vez, mas faz alguns bons anos e me apaixonei. E eles tocaram no Brasil umas duas ou três vezes nesse meio tempo, mas consegui não estar lá em todas, minha sina.

Ouçam algumas músicas do trabalho novo aqui. E o site oficial tem algumas pra baixar, inclusive a delícia "Wir Tanzen Im 4-Eck" ao vivo. E "Carte Postale", que é a versão francesa de "California Sun" dos Rivieras, que vocês devem conhecer na voz do querido Joey. Amoamoamoamo.

December 12, 2007

Ainda sobre o caso da adoção aí de baixo, pelo menos veio à tona o nome do casal. Tá nesta matéria do Telegraaf. É em holandês, mas não precisa de tradução : é só olhar a cara dos toscos pra entender.

Nesses sete anos eles não se deram ao trabalho de pedir a cidadania holandesa pra menina - e agora ela não tem mais visto de residência em Hong Kong. Só passaporte coreano, mas como ela passou a vida toda fora da Coréia, ela não fala a língua e vai ser total estrangeira lá também. Criança se adapta fácil, mas peraí, né? O_O

Eu tenho ódio de gente que abandona animais de estimação quando se cansa deles, imagina de quem faz isso com uma criança humana. No caso de animais, quando a gente não tem como ficar com eles, pelo menos procura alguém de confiança com quem possa deixá-los, tenta encontrar um novo lar. Esse casal nem isso fez, simplesmente entregou a garotinha ao serviço social. Tipo, "se virem".

E é por isso que eu gosto tanto de gatos. Gente, bah.

December 11, 2007

Na verdade eu ia postar sobre outra coisa, mas fiquei tão indignada com essa notícia que não ia conseguir não falar nisso hoje.

Anger as Dutch couple give up Korean girl, 7, they adopted as baby over 'failure to fit in'
Last updated at 17:24pm on 11th December 2007


A Dutch couple has sparked outrage by giving up a seven-year-old South Korean girl they adopted as a baby – after claiming she didn't "fit in" with their life-style.

The diplomat and his wife, who had taken in the child after failing to conceive, handed her to social workers in Hong Kong after having two biological children.

They claimed the girl, who was adopted when four months old and has lived in the territory since she was three, was struggling to adapt to their culture, including food.

Now the Hong Kong's Korean community is trying to find a home for the unnamed child who is currently in foster care after being given up last year.

The girl, who speaks English and Cantonese but not Korean, is neither a Dutch citizen nor a Hong Kong resident, so her future in the territory is uncertain.

In South Korea, parents cannot return adopted children, but no such law exists in Hong Kong.

The diplomat told reporters, who agreed to his anonymity, that his family was struggling to cope with their decision and said his wife was having therapy.

"It's just a very terrible trauma that everyone's experiencing," he said.

"My foreign ministry knows about my situation.

"I have also been in touch with the Hong Kong Government and they have been very helpful to me and so has my own employer."

But the plight of the girl has sparked anger among social workers and many of the seven million people living in the territory.

"It's bizarre. I don't think it has anything to do with cultural shock," said Law Chi-kwong, an associate professor at the University of Hong Kong's Social Work department.

"The child grew up with them. They adopted her when she was a baby; they are responsible for shaping the child's mind and culture.

"How can you say the child cannot adapt to the culture in which she was raised? This is just ridiculous."

Members of Hong Kong's Korean community have flooded the country's consulate with offers of help.

Mark Choi, a spokesman for the Korean Residents Association in Hong Kong, said: "Several families have come forward to offer to adopt or foster the girl."

Hong Kong's Social Welfare Department said it was working with the adoptive parents and relevant parties on the future care of the girl.

It refused to disclose any other details.

Peter Mollema, spokesman for the Dutch foreign ministry in The Hague, said: "These are personal, private matters not shared with everybody at the ministry.

"Right now, we're trying to get the facts straight."


Como assim, mané? Pegaram a menina aos quatro meses de idade e agora, SETE anos depois, me vêm com essa, dela "não se adaptar"? Eu fico irada com esse tipo de gente, e juro que até pensei em eu mesma adotar a menina. Imagina o sentimento de rejeição que vai ficar eternamente na cabecinha dela? Ninguém merece isso, muito menos pela falta de noção dos outros. Aaagh.

December 10, 2007

Eu tenho uma certa impressão de que 2007 tem sido um ano ruim pra todo mundo, em geral. Claro, na verdade coisas legais aconteceram também, mas parece que as chatas estão ganhando na contagem.

O que fazer nessas horas? Eu fui é ter um dia mulherzinha, e vi "I Could Never Be Your Woman". Quando estreou nem liguei - mas ontem descobri que é da Amy Heckerling E tem o Paul Rudd!

(entendam, o Paul Rudd pra mim tá no mesmo patamar que o John Cusack - lindo, adorável e eu vejo QUALQUER filme com ele, por mais lixo que seja)

Aaah, que delícia de filme! Tudo, absolutamente tudo é um grandíssimo sarro bem-tirado - da idade dos personagens em relação à idade real dos atores às incontáveis referências ao sucesso anterior da diretora, "Clueless". Chorei de rir.

E putz, tem o Jon Lovitz. Adoro.

Pra completar, ainda fez um dia razoavelmente bonito, e a H&M está em liquidação. Arrematei umas coisinhas de 2, 5 e 10 euros que vão deixar eu e minha irmã bem contentes (ok, eu esqueci por meia hora que tinha dito que não ia mais comprar roupa este ano). I love being a girl.

December 09, 2007

Pois bem - "The Secret History" é bom paca. Do tipo que me fazia sentir inquieta se eu estivesse fazendo outra coisa que não ler.
A comparação com Bret Easton Ellis é superficial - os personagens da Donna Tartt são mais complexos, e existe um mundo além de dinheiro, tédio e drogas. A questão fundamental não são os acontecimentos, mas como cada um reage a eles. E sim, ela faz um trabalho de mestre ao conduzir nossas impressões sobre cada um. O narrador, Richard, faz a ponte perfeita entre personagem e leitor. Suas dúvidas são nossas dúvidas, suas reações, nossas reações.

Não dá pra falar muito sobre o livro sem virar spoiler - se é que mais alguém não leu. Tsc. Como eu lamento ser cabeça-dura às vezes.

December 07, 2007

Que eu tenho uma certa obsessão com culinária, todo mundo já sabe. Por isso, quando descobri que o Hervé This ia fazer uma demonstração de gastronomia molecular aqui na cidade, fui correndo me inscrever para a palestra.

Para uma audiência heterogênea, que incluiu até o Johannes van Dam - o crítico de restaurantes mais famoso daqui - This explicou o universo de possibilidades que se abre com seu trabalho de pesquisa, iniciado há vinte anos : destrinchando os ingredientes ao nível mais básico (a estrutura celular e molecular), entendendo como se comportam sob determinadas condições e relacionando tudo isso aos processos de preparo, o número de combinações desses building blocks torna-se incontável. De repente, depois de séculos comendo basicamente os mesmos alimentos, preparados do mesmo jeito, podemos agora brincar com a sua estrutura, alterando textura, sabor, forma. O resultado pode não ser palatável sempre, nem nutritivo - mas tudo depende de como for utilizado. E de qualquer forma, This considera a culinária uma arte, e a gastronomia molecular uma forma de prover um espectro mais amplo de possibilidades. E, a julgar pelos seus seguidores - Ferran Adrià, Heston Blumenthal, Pierre Gaignaire, Wylie Dufresne - ele tem razão.

O único problema foi o tempo escasso, e a apresentação foi espremida em uma hora, mas pelo material que ele tinha disponível, poderia ter se estendido pelo menos por umas três ou quatro. Quem não tinha um certo background sobre culinária ou química deve ter boiado um pouco entre as citações de emulsões, suspensões, fórmulas estruturais e nomes fundamentais para a história da comida, como Carême e Parmentier, mas acho que a idéia geral ficou.

É coisa de cientista maluco? É, mas acho interessantíssimo. Porque afinal, cozinhar é uma série de processos químicos e físicos - quanto mais controle sobre eles, mais precisos os resultados. Quanto mais você entende o funcionamento de algo, melhor é o seu aproveitamento. Quanto mais conhecimento sobre um elemento, ou um processo, mais segurança você tem em desviar do caminho normal e descobrir novidades. Um dos meus chefs favoritos, o Heston Blumenthal citado acima, é um que leva esse estudo ao pé da letra. Ele fez duas séries de TV, uma explorando a base da química na cozinha (Kitchen Chemistry), onde ele demonstra o porquê de vários fatos culinários e como ele chegou às suas idéias mais conhecidas (e polêmicas), como o sorvete de ovos com bacon, ou bolo de chocolate com gorgonzola. Na mais recente, In Search of Perfection, ele usa a ciência como forma de obter a execução mais perfeita de pratos clássicos da culinária britânica. Ambos são muito interessantes, e bem esclarecedores.

O Adrià tem o mérito de ter tornado a culinária molecular conhecida no mundo todo, e colocado a Espanha como símbolo de criatividade e vanguarda - mas o lado marqueteiro dele me irrita e sim, sinceramente, esvazia o que ele criou até agora. Francamente, batata chips, fast food e produtos com o nome dele são iniciativas vergonhosas de faturar um apelando para os fetichistas de marcas. São coisas que obviamente não têm valor criativo, apenas comercial - uma espécie de consolo para quem não pode ter the real thing.

E por isso mesmo, eu curto demais o Wylie Dufresne. Os pratos do wd-50 que experimentei oscilam entre o genial e o medíocre, mas você sabe que ele está na cozinha e adora o que faz, sempre tentando ultrapassar o próximo limite. O restaurante fica numa rua sombria, longe de badalações, e o chef tem uma personalidade discreta e sim, meio de cientista. Maluco.

December 05, 2007

"Omnia mutantur, omnia fluunt, quod fuimus aut summus, cras non erimus"

(”All things are subject to change, all things flow, tomorrow we will not be what we were yesterday or we are today” - adaptação para prosa de "Metamorfoses" de Ovidio, livro XV)


A primeira vez que vi essa citação, há anos, pensei : é a única verdade absoluta que existe. Tudo muda, impiedosa e impreterivelmente. Vivos ou mortos, estaremos sempre à mercê de um movimento perpétuo, que por vezes se faz perceptível, outras não. A mudança é o nosso mecanismo primário, a vida em si. Átomo, molécula, célula, embrião, órgãos, cinza e átomo. Moto contínuo. E aí entra a minha outra citação preferida : "Omnia mutantur, nihil interit" - tudo muda, nada morre. Deus existindo ou não. E esse processo não é justamente a imortalidade que os antigos atribuíram aos deuses?

E à minha volta, a mudança inexorável se faz presente. Amigos à beira de mudarem de estilo de vida, de estado civil, de profissão, de país, de cidade. Amigos que encontraram um amor, que descobriram falsos amigos, que acharam novos amigos, que estão indo atrás da felicidade, que entenderam porque estão onde estão. Amigos com projetos novos, amigos que viram seus projetos antigos naufragarem. Amigos que mudaram o corte de cabelo, que ouviram bandas novas, viram filmes e leram livros que nunca tinham lido. Amigos que mudaram de idéia, que estão decidindo para onde vão.

Eu fico feliz com esse movimento todo. Estou sempre aberta a mudanças, e se eu tivesse um conselho a dar a todos, seria exatamente isso : embrace change. Mesmo o que parece negativo no começo, tem uma razão no grande mecanismo geral, e é parte da vida. É necessário pra que se ande para a frente (porque pra trás não dá), é fase de jogo. Não temam.

Há três anos, tomei uma decisão que me traria mais mudanças que eu podia imaginar. E aqui estou, pronta pra seguir adiante.

Vamos?

December 04, 2007

A série "Resident Evil" é uma grande exceção entre as adaptações cinematográficas de games : não só é muito boa, mas também é irresisível mesmo pra quem nunca jogou o original.

"RE : Extinction" é um filmaço, e definitivamente o melhor dos três - cenários apocalípticos, zumbis em profusão, sustos e tensões bem colocados (engasguei com a pipoca mais de uma vez), clonagem, um mundo controlado e os últimos humanos livres - tudo que uma sci-fi distópica de horror das boas precisa. Sem contar a Milla Jovovich kicking some serious ass. Bem dirigido, bom ritmo, bons efeitos, referência aos clássicos do George Romero e finalmente uma história mais firme por trás. Não consegui achar nada de errado nesse filme - até a duração, menos de duas horas, é um espanto.

December 02, 2007

Assisti ontem a "Friend", um dos maiores sucessos de bilheteria na Coréia do Sul. Compreensível, pelas boas atuações da dupla principal e a mistura de drama e violência em montagem ágil. E claro, o final emotivo, onde o não-dito tem mais importância que as palavras trocadas. A princípio pensei que fosse um daqueles filmes de máfia oriental à la Kitano, mas é mais uma ode à amizade incondicional - algo emblemático na cultura coreana.

Amigos de infância, Dong-Su, Joon-Sook, Jung-Ho e Sang-Taek crescem e tomam rumos diferentes. Os dois primeiros se tornam gângsteres, enquanto os outros dois levam vidas simples e comuns. Mesmo assim, o sentimento que une os quatro é forte, e às vezes, o único conforto, a única certeza com que podem contar.

Eles se dizem frequentemente : "entre amigos não há o que se desculpar". Porque a princípio o amigo, mesmo errando, nunca tem intenção de causar mal. Lealdade, essa sim uma das bases de uma amizade real e duradoura.

(quanta gente precisa aprender isso!)

December 01, 2007

Eu tenho um certo problema com recomendações e hypes em geral. Com música até que eu tolero mais. Mas livros...recomendação eu só ouço de gente de quem eu tenho certeza sobre o (bom) gosto. E hypes? Bom, saiu em lista de best-seller já é três-quartos do caminho pra eu não ler. Apareceu na lista da Veja, então, eu já risco da minha na hora, hahahaha.

O saco é quando os amigos indicam coisas. Como quando a Gabi (Mrs. Fergusson) disse que Donna Tartt era sensacional, há uns anos. Essa era uma autora que tinha passado completamente fora do meu radar. Fiquei com a idéia de comprar "The Secret History" me martelando por séculos a cabeça, como um dever procrastinado eternamente. Aí, finalmente comprei, há um ano e pouco. E deixei o livro lá na estante, mofando. Por um lado, eu sabia que se a Gabi gostou, certamente é bom. Sem dúvida. Do outro, a coisa de "ter" que ler. Eu odeio "ter" que fazer qualquer coisa que não seja pela minha vontade e capricho puro e simples. E fiquei adiando abrir o livro, provavelmente num protesto inconsciente : "eu leio quando EU quiser". Dã. Don't ask me, eu sei que é ridículo : eu não aguento ser mandada nem por mim mesma. ¬¬

Finalmente parei com essa bobagem e agora tô me xingando internamente por não ter começado antes - porque é bom mesmo. Extremamente parecido com o Bret Easton Ellis de "Less Than Zero" (no wonder), mas com personagens mais trabalhados, intrigantes.

Eu consigo ser muuuuito tonta às vezes.

Putz, vi o episódio mais legal do No Reservations do Bourdain : Cleveland.


E que cazzo tem em Cleveland? De comida não tanto, mas teve participação especial do Harvey Pekar! E do Marky Ramone, de sobremesa. Finíssimo!

November 30, 2007

Como eu falei de horóscopo chinês no outro post, aqui vai um rápido follow-up : a wikipédia tem uma explicação bem legal sobre os signos aqui. Tinha várias coisas que eu não sabia (bom, nunca li nada a fundo sobre isso), e achei interessante.

Eu sou Porco de Metal. O Akira é Rato de Metal. O signo dele é yang, e o meu é yin - ou seja, complementares (o engraçado é que na verdade, medindo energeticamente, eu sou yang e ele é yin). E ainda somos regidos pelo mesmo elemento, a água.

(e nenhum dos dois sabe nadar! hahahaha)

(e ele tem o mesmo signo do meu pai e do meu avô materno O_O)


Não surpreendentemente, a Andrea tem o mesmo signo que eu :-)

E a Juli pediu pra eu falar algo sobre o signo do Cavalo. Bom, segundo a descrição : "Lovable, enthusiastic, romantic, independent, intelligent, creative, handsome, charming, optimistic, adventurous, tolerant, rebellious, funny, easy-going, cheerful, charmistic, and strong. Fickle, impatient, restless, hot-headed, quarrelsome, quick-tempered, vain". Eu acho que bateu perfeitamente! :-)

November 29, 2007

Tô quebrada. Dormi tarde como sempre, tive que acordar cedo pra ir à dentista lááá do outro lado da cidade. Mas também saí de lá direto pra Boekenfestijn, a feira do livro daqui.

Fui com as expectativas baixas, apesar de ter comprado montes de livros ano passado : mesmo assim, fui com uma mochila maior, sapatos mais confortáveis e já alimentada com um kebab de rua. Táticas de quem não quer se decepcionar.

Expectativas baixas o caralho. Saí com 24 livros e alguns itens de papelaria e gastei 83 euros, cinco a menos que o ano passado. Um livro sobre os Ramones, que estava na minha wishlist da Amazon; o "Oracle Night" do Paul Auster, e "Paddy Clarke Ha Ha Ha", do Roddy Doyle, que eu estava querendo há tempos. Mais uns clássicos que estou querendo ler, estimulada pela Cris A.. Mais uns mangás que parecem interessantíssimos, por 1,95. A "Trilogia Suja de Havana", do Gutiérrez. E um livro de contos dos irmãos Grimm. e mais um monte de coisa. Tá bom, não tá? Tive que carregar 10 kg de livros no final (eu pesei na balança aqui de casa).

November 28, 2007

Este ano, dois dos meus amigos mais queridos tiveram filho. O Enzo da Aline e Paul, e a Natália do Lu e Fabiane. No intervalo de um mês.
2007 é ano do porco/javali no horóscopo chinês, meu próprio signo. Melhor ainda, porco de fogo. Um ótimo ano pra se ter filhos, porque obviamente todos vão sair como eu :-) : felizes e relax. With a twist. Minha mãe mesmo estava torcendo pra que a família van der S se multiplicasse durante a regência desse signo, mas acho que não vai rolar, heh ;-)

O Lu é meu amigo há quase vinte anos. Vi várias fases da vida dele e nos divertimos muito juntos, e tenho certeza de que vai ser um pai fabuloso.

Aline eu guardo no coração há quinze - também acompanhei várias aventuras dela pelo mundo, e fiquei comovida quando soube que ela estava grávida, no começo deste ano. Outra pessoa boníssima, que vai ser uma grande mãe.

Tenho uma alegria torta em saber que a prole de amigos tão queridos vai ter o mesmo signo chinês que eu. Que se tornem pessoas felizes e completas, e que saibam o quanto têm sorte de ter os pais que lhes foram atribuídos - bons, inteligentes e grandes exemplos de seres humanos.

Ah, esqueci uma parte da exposição - a sala Silver Clouds. É que essa instalação já tinha visto em SP há uns anos, no SESC Pompéia, e muuuuito melhor apresentada. Aqui, os balões ficaram apertadinhos num canto, e poucos em número. Que sem-graça.


November 27, 2007

Não poderia haver lugar mais adequado para abrigar a fantástica exposição "Andy Warhol : Other Voices, Other Rooms". O antigo prédio dos Correios, uma construção feia, desgastada e espaçosa ao lado da Estação Central, dá o tom ideal da NY da Factory.

A primeira sala conta uma vida em fotos : Warhol criança, jovem, em drag, antes e depois da plástica no nariz, retratado por Avedon, Mapplethorpe, auto-retratos, fotos de festas e a infame tentativa de assassinato por Valerie Solanas, como garoto-propaganda, com Miles alguns dias antes de falecer. Nas outras paredes, projeções de 4 filmes sobre o artista : dois Jonas Mekas, um Marie Menken e o famoso "Andy Warhol's Explosive Plastic Inevitable", de Ronald Nameth. Caos de imagens em p&b ao som de Velvet Underground.

A sala Cosmos é a ala das artes gráficas : mas aqui, as latas de sopa e Marilyns coloridas não são a grande atração, e sim a chance de ver gravuras, rabiscos, contatos, recortes de jornal, capas de discos, polaroids e até uma coleção da revista Interview, criada por Warhol como um zine sobre cinema e que se tornou um ícone fashion nos anos 70 e 80 (tinha até no Brasil, lembram? Não sei se era related ou só cópia) com as suas capas lindíssimas. Além disso, há estações com diversos vídeos realizados na Factory - os Factory Diaries - registrando desde processos de criação a uma visita da Liza Minelli, passando por uma "carta a Man Ray", onde ele não sabe mais o que falar depois de um ponto e repete "Man Ray" sem parar pra preencher o tempo. E cabines de áudio, com gravações de conversas variadas e, claro, uma gravação de Nico cantando "I'll Be Your Mirror", nonstop. Confesso que parei mais de uma vez nessa :-).

Mas o melhor ainda não era isso! A sala seguinte, Filmscape, exibe 19 filmes dentre a extensa produção do papa do pop. O clima da instalação é de uma certa cacofonia, dos fragmentos de áudio que escapam das estações e as dezenas de imagens flutuando em telões iluminados, misturados aos comentários assombrados ou divertidos dos visitantes. Fui direto ao centro e me sentei diante do emblemático "The Chelsea Girls", exibido segundo o conceito original - tela dupla, com duas "histórias" exibidas simultaneamente e lado-a-lado. As histórias não têm relação entre si e nem nexo - a maioria são improvisações on-camera (recorrentes em toda a filmografia do Warhol), mas visualmente são hipnotizantes. Assisti a uma boa meia hora (são mais de 3h), e por sorte peguei justamente a da Nico e a do Gerard Malanga.



Mas os outros filmes são igualmente mandatórios - "The Naked Restaurant", onde a Viva comanda um restaurante...nu. Todo mundo nu, discutindo assuntos do dia, como Cuba e Castro; "Kitchen", com a Edie Sedgwick mostrando os pernões numa discussão nonsense numa cozinha; "Mrs. Warhol", estrelando a mãe do Warhol, o imperdível "The Velvet Underground & Nico: A Symphony of Sound", mostrando uma jam do VU na Factory interrompida pela chegada da polícia (chamada pelos vizinhos que reclamaram do barulho); "Henry Geldzahler", uma "entrevista" de 99 minutos, onde Warhol nem esteve presente na maior parte do tempo, e Geldzahler foi deixado em frente à câmera - interagindo com ela no começo, e depois simplesmente parado até o filme acabar (gênio, analiso melhor em outro post); e um dos que achei mais brilhantes, "Outer and Inner Space", que coloca a Edie Sedgwick falando, tendo ao fundo/ao lado uma tela mostrando a própria numa outra gravação, falando outras coisas. Isso tudo gravado por duas câmeras diferentes, portanto a imagem é quadruplicada. Peguei um trecho em que a Edie "gravada" espirra, seguida de um espirro da "real" e achei incrível, ensaiado ou não.



Acabou? Não! A sala seguinte, TV-Scape, mostra os 42 episódios de uma série de TV criada pelo Warhol de 79 a 87, "Andy Warhol's TV". Esses programas são a maior síntese da cultura pop do século XX, hands down. Todos os nomes da música, moda, cinema, TV, literatura e arte que conhecemos estão lá : Debbie Harry, Marc Jacobs, Yoko Ono, Rob Lowe, Diana Vreeland, David Hockney...you name it. Até a Betty Lago.

Mas o ícone máximo do pop sempre será o próprio Warhol. Até sua morte, não existia veículo que ele não tivesse explorado, movimentos que ele não tivesse influenciado, personalidades que ele não tivesse conhecido. Faz vinte anos de sua morte, e ainda há tanto o que explorar em sua extensíssima obra que eu poderia falar aqui horas. Certamente essa exposição é uma das mais completas fora do The Andy Warhol Museum, e uma grande chance de sentir um pouco da NY fervilhante e criativa daqueles anos loucos.

November 25, 2007

Ler "The Book of Illusions" do Paul Auster logo em seguida do "The New York Trilogy" me causou uma sensação opressiva de andar em círculos, de presenciar uma sequência de fatos em loop, de ter de assistir passivamente à cobaia presa na gaiola repetir seus movimentos ad eternum. Afinal, mesmo publicadas com 15 anos de intervalo e com pequenas variações, todas são a mesma história : o escritor contando sobre o escritor levado ao isolamento total e à anulação do eu por conta de uma obsessão, resultando num livro que, por final, é o tema do livro que você lê. Que não é necessariamente o livro que você está lendo na realidade. Mas também o é.

(I love mind games)

Personagens e autor se (con)fundem intencionalmente o tempo todo, trançando referências reais e ficcionais - o que torna a ficção um pouco verdade, e a realidade um pouco irreal. E a narrativa (exclusivamente em primeira pessoa) toma ares confessionais mas ao mesmo tempo distanciada - como quando nos descrevemos pelo reflexo num espelho ou nos assistimos em um filme : vemos nossas ações, mas do lado de fora. Assim, apesar de ser sempre em retrospecto, nada é revelado antes da hora, e o narrador-personagem se dissocia : o narrador obviamente conhece o desfecho, mas o personagem ainda não. E nós tampouco, o que nos obriga a ler continuamente em busca de respostas. O segredo do bom page-turner ;)(sem contar, é claro, os personagens geniais e as histórias intrigantes)

Enfim, essa análise toda é viagem minha - na verdade é tudo mais simples e objetivo que isso. Mas não importa de que maneira você leia, o Auster é genial.

November 24, 2007

Tem post novo no StatsQuê?. O cerumano é uma caixinha de surpresas.

November 23, 2007

Aaai. Bom, a Beth me passou uma corrente (já disse aqui que isso NÃO é meme - aliás, pronunciado como gene). Como é a Beth, eu respondo. Mas já aviso : não passo pra frente nem a pau.

Uma hora: 22h30 (faz diferença?)
Um astro: Vênus (ui)
Um móvel: Estante (merecem, guardam meus livros, DVDs e CDs)
Um líquido: Água (base pra tudo, vida)
Uma pedra preciosa: Jade (vale?)
Uma árvore: Cerejeira ou ameixeira (por causa das flores(. Pode ser ipê-roxo também (meu pai curtia).
Uma flor: Margarida. Ou Gardênia.
Uma cor: Vermelho. Ou Roxo.
Um animal: Gato
Uma música: "Blitzkrieg Bop", Ramones. Ou "I'm a Believer", Monkees.
Um livro: "Little Women", Louisa May Alcott.
Uma Comida: Carne crua. Com mostarda, molho inglês, alcaparras e batatas fritas (é, é steak tartare).
Um lugar: Paris.
Um verbo: Observar.
Uma expressão: Putz.
Um mês: Setembro (todo mundo coloca o mês do aniversário?)
Um número: 13
Um instrumento musical: A Telecaster amarela do Olga dos Toy Dolls.
Estação do ano: Outono
Um filme: Chacun Cherche Son Chat. Ou Little Women, do Mervy LeRoy. Baseado no livro.

Alguém me conheceu melhor com essas informações? Ok, I knew it.

November 22, 2007

E por falar no Vincent Lindon, morri de ódio quando ele casou com a Sandrine Kiberlain, que eu achava a atriz mais sem sal da França. Mas agora resolvi ver o que ela anda fazendo, e pelo jeito ela aderiu à moda de virar cantora. No site e no myspace tem umas amostrinhas do último álbum, e não é que é legal? As músicas são mais ou menos, mas bonitinhas e boas pra se escutar descompromissadamente. "La Chanteuse" é uma graça.

November 21, 2007

Assisti a "Vendredi Soir", da Claire Denis. Um encontro ao acaso numa Paris paralisada pela greve do transporte público. Acompanhando o trânsito caótico, o ritmo da cidade se torna lento mas com uma pressão discreta e cumulativa. Poucos diálogos, muitos olhares - curiosos, entediados, lascivos, impacientes, enigmáticos. Imagens quentes, close-ups que fazem quase sentir o cheiro e o calor da pele. Uma mulher de quem sabemos muito pouco e um homem de quem não sabemos nada. Duas pessoas comuns, sem passado e sem futuro, vivendo um relacionamento completo que dura uma noite.

O filme é basicamente isso. E muito bom, e vale por ter a Valérie Lemercier num raro papel não-cômico, e o Vincent Lindon, que eu acho mesmo lindon. Tudo nele grita "homem!" - as mãos, orelhas, nariz, voz. Mas com uma atitude sensível e gentil que é de matar. Uf.

(mas isso sou eu, porque eu tenho lá meus motivos pra achá-lo maravilhoso)


"30 Days of Night" é sinistro, sangrento, efeitos ótimos e boa direção. Não li a graphic novel, então não sei quanto à fidelidade ao original, mas é um programão.

Vampiros nunca estiveram no meu top 10 de coisas assustadoras - grande parte por culpa da imagem sedutora e aristocrática propagada pelo Bram Stoker, gótica demais, teatral demais. Sinceramente, me enche o saco esse viés erótico que tomou a lenda (a melhor notícia dos últimos tempos foi a Anne Rice encontrar Jesus, haha). Graçazadeus, não é o caso aqui. Os ataques são animalescos, impiedosos, a tensão é enorme e bem explorada. Os vampiros aqui parecem realmente com o tipo de criatura que alimenta pesadelos e lendas.

Saí do cinema e dei de cara com uma noite fria e prematuramente escura. Fui rapidinho pra casa...

November 17, 2007

Ontem tive meu próprio momento proustiano. Encontrei no supermercado petits pains suédois, que são pãezinhos cortados ao meio e torrados. Lembrei que gostava deles, fiquei toda alegrinha e comprei um pacote.
Cheguei em casa e já fui experimentando um. Hm, crocante e nutty. Mas fiquei meio decepcionada, porque não parecia a mesma coisa. Deixei o pacote pra lá e fui fazer outra coisa.

Mais tarde, fui tirar os queijos da geladeira pra fazer fondue, que era o jantar programado. Gruyère, emmental, e comecei a ralar. No finzinho do emmental, me deu um clique e pensei : hm, isso deve ficar bom com um dos petits pains. Cortei um pedacinho dele e comi com uma das torradinhas suecas.

Era isso! A combinação de sabores me emocionou, e de repente lembrei o porquê : foi a primeira coisa que comi em Paris, na minha primeira vez na cidade, há mais de dez anos. Um fato que eu tinha esquecido completamente, encoberto por tantos outros que se seguiram nesse tempo todo. Mas que, pelo visto, nunca deixou de ter importância.

Em 96, fui a Paris pela primeira vez, para fazer um curso de verão na Sorbonne - Langue et Civilisation Française. As residências estudantis já estavam todas ocupadas, mas consegui alugar um apartamento normal no 7ème através de um anúncio pregado não lembro onde. Cheguei na cidade num domingo, e fui pegar a chave com o administrador, um senhor brasileiro muito tranquilo. Ele foi comigo me mostrar o apartamento e como funcionavam as aparelhagens, código da porta, etc.

Fiquei pasma, porque o lugar que aluguei sem ver era um apê grande, lindo, com quarto, sala, cozinha equipada e banheiro - na verdade poderia ser dividido com mais gente, mas consegui alugá-lo sozinha. Das janelas se via a Torre Eiffel, e a rua tinha a mistura exata de movimento e calma. Não podia querer mais nada.

O administrador então se despediu e explicou que, por ser domingo à noite, ele previu que seria difícil eu conseguir comprar comida naquele horário - e deixou umas coisinhas pra que eu não ficasse sem nada.

Abri a geladeira e encontrei - sim, um pedaço de emmental e um pacote de petits pains suédois. Fiquei comovida com o cuidado inesperado, e senti que aquele período ia ser um dos mais felizes da minha vida.

E assim, na minha primeira noite de verão em Paris, sozinha frente às janelas abertas mostrando a Torre iluminada contra o céu escuro, consciente da minha tremenda sorte de estar ali, tocada pela beleza e gentileza, comi queijo suiço, pão sueco e água - e nada pareceria mais gostoso.

November 15, 2007

"Dig for Fire - a Tribute to Pixies", pra ouvir online (sim, mais um tributo!). Em geral, bacana.

Mas claro, nada como o original.



(Via Ilustrada no Pop)



"Chocolade Haas", um curta do holandês Sander Plug.



(Via SeriousEats)

November 14, 2007

Hoje foi um dia bizarro. Post, só amanhã.

November 13, 2007

Ainda pelo Orkut, notei que duas profissões são o alvo de sonhos de muita gente : comissário de bordo e locutor de rádio. Chega ao ponto de ter gente dizendo que trabalharia sem pagamento, se tivesse uma chance.

Primeiro : quer trabalhar sem ganhar dinheiro, vai ser voluntário pra alguma instituição útil, que PRECISA da sua mão-de-obra gratuita. Deixa quem tem capacitação pra exercer a função ganhar o salário devido e tirar um pouco de grana das grandes corporações. Porque SIM, eles ganham dinheiro, mesmo que não te paguem.

Segundo : as duas carreiras precisam de treinamento especializado E uma certa vocação. Mas acima de tudo, um certo senso de realidade. Tá bom que você quer ser comissário porque acha nasceu pra servir os outros e acha o máximo da recompensa um sorriso de um passageiro (!). Eu sei que o que você quer mesmo é fazer o circuito Elizabeth Arden e conhecer o mundo. Não há problema nenhum nisso. Da mesma forma, o sem noção que fala que o dinheiro não importa, ele quer é se comunicar com o mundo, na verdade quer é ser famoso, um Eli Corrêa da vida (quem?). Encarem isso que fica mais fácil. Em 90% dos casos, é isso que acontece. E quem ganha são esses cursos fuleiros que cobram uma grana dos sonhadores incautos.

(o curso de locução do SENAC é bom e confiável, e quanto aos aspirantes a comissário...bem, nenhum dos meus amigos que foram contratados por companhias internacionais - AF e LH - jamais pisou numa dessas escolas de aviação. Cada empresa tem seu treinamento específico e te dá um tempo pra tirar o certificado geral, já contratado. Mas o pior mesmo é gente que faz curso de agente de solo - pagar pra aprender a fazer check-in, embarque e desembarque, sendo que cada companhia aérea tem um procedimento e sistema diferente?!)

O foda é que eu vejo nego achando que comissário/aeroviário não tem que falar outra língua e aspirante a locutor não sabendo falar nem português. Sério : se você acha que o passageiro estrangeiro não se importa de não ser capaz de se comunicar com você verbalmente e se satisfaz com a sua simpatia, precisa realmente viajar mais como pagante. E se você acha que tudo que o ouvinte quer é ouvir a sua bela voz falando "as árvere somos nozes" ou levando a palavra de Jesus, tem de criar um pouco de noção. Senão o máximo que você vai conhecer do mundo vai ser o Rio de Janeiro e a palavra de Jesus não vai passar do boteco da esquina.

* finalmente a temperatura vai chegar perto de zero grau. Não chovendo, tá bom.

* finalmente o Orkut viu a luz e não me obriga mais a ver se fulano adicionou vídeos, mudou o profile ou resolveu andar de quatro. Fora updates!

* finalmente decidi não comprar mais NADA de roupas, sapatos ou cosméticos até eu usar tudo o que tenho. O armário transbordante agradece, e meu bolso também.

* frutas aqui nesta estação são um tédio : maçã, pêra, pêra, maçã. O que salva são os morangos holandeses (que são ótimos) e as ocasionais frutas importadas. Mesmo assim, as mangas não têm cheiro algum (!) e as bananas são Chiquita.

Eu acho que só gosto do verão pelas cerejas.

* Dean&Britta não vão tocar aqui. Tem show de TUDO quanto é banda aqui, mas não vai ter Dean&Britta. Merde.

* Eu tenho um twitter, mas prefiro postar essas coisinhas aqui, ué.

November 12, 2007


(sim, a capa é do Yoshitomo Nara)


Snif. Agora não sobrou nenhum livro da Banana Yoshimoto pra ler, até ser lançado o próximo. Terminei "Hardboiled/Hard Luck" ontem, e achei muito bom. Obviamente, porque o tom fantástico de "Hardboiled" lembra um Murakami mais melancólico e feminino. E "Hard Luck" é lindo e simples, principalmente pra quem passou por situação semelhante. As duas histórias giram em torno do mesmo tema - a morte de alguém querido - mas o tom nunca é depressivo, e sim reflexivo. De fato, eu diria que são mesmo sobre a vida em si e uma de suas grandes verdades : perdas e despedidas fazem parte da existência. Não se deve encarar o vazio que fica quando alguém morre, e sim perceber em si o quanto dessa pessoa ficou, e o quanto esses fragmentos de presença - lembranças, vestígios, ensinamentos - transparecem ou influem no que fazemos pelo resto da vida. Ou seja, vão sempre ser parte de nós. Quem entende isso é capaz de seguir vivendo e ser feliz.

Afinal, sentir saudade não deixa de ser uma forma de poder carregar consigo um pedacinho de quem a gente perde.

November 11, 2007

Olhei na geladeira e encontrei os seguintes restos mortais olhando pra mim : um cubinho de manteiga de 2cm x 2cm; UMA fatia de presunto cozido; vários pedaços de queijo (comté, tomme noire, manchego, grana padano e boursin); meio vidro de champignon em conserva; umas ervas frescas já não tão frescas assim (alecrim, tomilho, sálvia) - eles estavam PEDINDO pra virar molho, nénão? Ainda mais porque no armário tinha meio pacote de fusilli moscando há meses sem ninguém dar atenção, coitado.

Derreti a manteiga em fogo baixo, joguei a sálvia picada. Depois, meio pacote de Boursin (alho e ervas), os queijos ralados, algumas folhas de tomilho e alecrim. Um pouco de leite (uns 200 ml?), os champignons e o presunto picado. Mexendo sempre, ainda botei um pouquinho de vinho branco, pra aromatizar, e de maizena, pra engrossar um pouco. Pimenta-do-reino, deixar cozinhar e pronto! Um quase-romanesca pra servir com pasta. Ou será parisiense? Anyway, não tinha ervilhas. Eu lembro que adorava pedir ravioli à parisiense na Cantina Roperto no começo dos anos 90, e jogar um mooonte de parmesão ralado em cima. Good times.

(se eu não tivesse o Boursin, eu faria um molho branco básico - manteiga, fritar um pouco de farinha e misturar leite - e depois acrescentaria o resto)

Só não tirei foto porque ficou Belmondo. Mas aproveitei imensamente.

November 10, 2007

Gente simples rula. Abaixo a pretensão.



O privilégio de ter conhecido alguém de tantos talentos e com um coração tão grande quanto o seu foi uma das melhores coisas que aconteceram na minha vida. Por isso, obrigada por existir.

"Stupeur et Tremblements" é a versão cinematográfica do livro da Amélie Nothomb. Semi-autobiográfico, ele conta como a jovem Amélie, belga nascida no Japão, retorna para trabalhar no país do qual guarda lindas lembranças de infância e um certo fascínio. O cotidiano corporativo japonês acaba por se mostrar massacrante, não fisicamente, mas psicologicamente - pressão extrema pela perfeição, humilhação e subserviência, obediência acima da iniciativa, competição acirrada. Mas nada disso demove Amélie, que, em busca de se tornar um pouco japonesa, assume uma das posturas mais características - a de não perder a dignidade. Pedir demissão seria uma vergonha maior do que se submeter aos abusos dos chefes, e ela encara tudo com um certo espírito zen-masoquista - até mesmo ser mandada cuidar dos banheiros. Sua educação ocidental e sua cara de estrangeira entram em choque o tempo todo com a cultura tradicionalista e xenófoba do Japão, resultando em insights interessantes e críticos. Obviamente, referências a "Furyo" não faltam, sendo citadas até diretamente.

É um filme belo e um pouco fabulesco, imagino que para tirar um pouco do peso da neurose, mas imperdível pra quem quer conhecer um pouco a outra face desse país, a que não é mostrada em "Lost in Translation". Amélie sim, sofre com a falta de comunicação. E eu gosto muuuuito da Sylvie Testud.

November 09, 2007

De todos os nossas capacidades, acho que sonhar é uma das minhas preferidas. Mas sonhar mesmo, daqueles quando a gente dorme e o inconsciente toma conta, misturando acontecimentos, medos, desejos, frustrações e pirações em pequenas cenas com um mínimo de coerência pra dar liga. Mínimo mesmo, só pra não virar uma maçaroca desconexa.

(Chris, Klein, Hector e tanta gente que falou sobre o assunto ultimamente e mais o Gondry podem atestar)

Pra falar de novo em Star Trek (I know, I know - pode chamar de nerd que eu gosto), fiquei emocionada quando num dos episódios o Data desenvolve a capacidade de sonhar. Não entende a princípio - mas depois percebe como é um privilégio. E como não encarar como um presente a chance de correr por lugares estranhos e que não existem, conversar com pessoas queridas distantes de você, viver situações que na vida real seriam arriscadas ou, melhor ainda, impossíveis? Eu adoro.

Às vezes os sonhos me consomem - acordo cansada fisicamente, quebrada mesmo, depois de sonhos onde corro ou ando sem parar (como o de hoje, em que eu andava de bicicleta numa avenida imensa em SP, que não existe, mas ligava o Anhembi à zona leste passando pelo minhocão, com alguém que não lembro quem era na garupa). Como pode?

Outras vezes, são tão bons que fico verdadeiramente chateada ao acordar - de que outra forma eu poderia abraçar meu pai e resolver a saudade de perguntar coisas triviais como "você quer que eu vá buscar uma pizza?", como se ele ainda estivesse por aqui?

E por isso mesmo, sonho legal é sonho absurdo. Como bem disse a Chris, sonho com coisas normais é mau sinal.

November 08, 2007

Ouvindo umas velharias de que gosto tanto. Dylan, claro. Itamar BeneditoJoãodosSantosSilvaBeleléuvulgoNegoDitoCascavé Assumpção, tanto cantando Ataulfo como "Sampa Midnight". Renaissance, "Carpet of the Sun" e "Let it Grow" tentando seguir os agudos da Annie Haslam (num passado distante eu conseguia). Nico e sua voz peculiar em "I'll Keep it With Mine". Lembrando que comprei CDs dos Seekers e do Manfred Mann e mal ouvi (especificamente por causa de "Georgy Girl" e de "Doo Wah Diddy Diddy", confesso - mas eu adoooooooro essas músicas).

Me intriga o fato de eu gostar mais de coisas produzidas no máximo até a década de 80 do que das de agora, não importa o gênero - que eu não me prendo a essas coisas. Tudo hoje parece releitura de algo (hm, na verdade é). Esgotou a fonte? Há menos paixão? O talento se diluiu na vida moderna? Sei lá.

November 07, 2007

Experimentei fazer empanadas hoje. Bem gostoso - a massa ficou bem elástica e deu pra esticar bem fininho, e o recheio ficou bom. Da próxima vez, contudo, acho que vou usar filé picadinho no lugar da carne moída, echalotes em vez de cebolas e juntar um pouco de vinho tinto e tomilho (será que é muita heresia?).


November 06, 2007

Assisti ontem a um episódio de "Star Trek : TNG" bastante interessante, porque tratava de algo que temos (hã, dizem) mas não se sabe totalmente como funciona : a memória. Um dos personagens, o Data - pra quem não conhece a série - é um andróide - e como tal, tem a memória toda organizada e catalogada, como um computador. Ô, que sonho. Tudo dividido em pastas, com datas, tags - pra acessar e localizar algo seria facílimo.

Infelizmente, nossa condição de humanos estabelece que a nossa memória seja armazenada segundo padrões totalmente subjetivos. Você pode coçar o cérebro até gastar, mas não vai lembrar do nome daquela música, ou daquele filme de que gosta na hora que quer. Da mesma forma, lembranças daquele namoro bom ou ruim vão aparecer do nada, quando menos foram chamadas. Ou ainda, sentindo o cheiro de água salgada, por exemplo, vai se lembrar de algum momento crucial da sua infância, esquecido até então. Sem querer.

Eu me considero uma pessoa com memória seletiva - costumo enterrar bem fundo as lembranças indesejáveis, e ao mesmo tempo sou capaz de desenterrar épocas apenas com um cheiro ou visão de um lugar conhecido. Não costumo ficar imersa em memórias em geral, porque pra frente é que se anda. Mas há momentos que certamente gostaria de manter num lugar protegido, como 2046...

November 05, 2007

E já que eu falei de festivais, neste final de semana rola o International Amsterdam Film Festival, o antigo RESfest de Amsterdam. O destaque é o filme novo do Hal Hartley, "Fay Grim", continuação de "Henry Fool", de 1997. Só por isso eu já iria, porque eu AMO HH e desde "The Book of Life", dos últimos filmes dele não vi nem sombra.

Fay Grim

Além disso, vão ser exibidos também os documentários "Good Copy, Bad Copy", sobre copyrights e pirataria (e que, coerentemente, tem download disponível no próprio site), "Inside/Outside", sobre grafite, vandalismo e street art e inclui a cena de São Paulo, e "Mr. Catra o Fiel", que mostra uma das faces da cultura funk das favelas cariocas. Os três são do dinamarquês Andreas Johnsen, que tem mais alguns que parecem igualmente bons no Rosforth.com. Acho que vale a pena conferir.


Se eu me animar a enfrentar as hordas de modernetes e de holandeses paga-pau de terceiro mundo que provavelmente vão encher o centro cultural, eu conto pra vocês.

November 04, 2007

Só porque eu fiz pouco caso de quem compra cebola já picada no supermercado.

Ontem fiz zás! no meu polegar. Como o entusiasmo não era muito e existem as unhas, pelo menos fiz um talho no dedo através da unha e não fatiei fora a ponta. Mas dói do mesmo jeito.


(note to self : quando dizem que a gente tem de dar tudo de si em tudo que faz, não significa literalmente. Dedos fazem falta)

November 02, 2007

Eu sou incapaz de jogar comida fora, traço que certamente puxei da minha mãe. A geladeira e a despensa da casa dela são o equivalente doméstico à ala egípcia do Louvre - pacotes e containers de coisas ressecadas, congeladas, empoeiradas e mumificadas. Algumas coisas nem devem ter data de validade, e sim teste de carbono 14.

Aqui em casa só não acontece o mesmo porque a gente tem um pouquinho mais de controle sobre o que é comprado e usado e o Akira é um neat freak, mas mesmo assim a nossa tendência a fazer comida pra um batalhão sempre resulta em sobras. O que é comemorado, porque significa que não precisamos fazer comida por uns dias.

(eu não sabia, mas descobri ao longo dos anos que tem gente que nem cogita consumir sobras - felizmente, nunca tive esse problema)

Daí que por acaso tínhamos um pedaço de atum cru na geladeira. Não fresco o suficiente pra fazer sashimi de novo, mas bom ainda. E um purê de batatas com alho-poró da semana passada também. A idéia é fazer um tartare de atum (cortar em cubinhos, misturar com suco de limão, shoyu, gengibre, cebolinha picada, wasabi e umas gotinhas de óleo de gergelim e deixar na geladeira por uma hora) com potato fritters (juntar um ovo e farinha de rosca ao purê, temperar com sal, pimenta, azeite, mostarda e pimenta vermelha. Formar panquequinhas e fritar em óleo quente). Colocar o tartare sobre as panquecas de batata e servir tudo sobre uma salada verde.

Parece bom, né? O problema é que antes disso eu tinha decidido fazer oden (um cozido japonês com batata, nabo, ovo, tofu, konnyaku e bolinhas de massa de peixe, que se come com mostarda japonesa). Tem um panelão no fogo e vai durar uns 3 dias, pra nós dois.

Que será que se pode fazer com resto de oden?...




Novembro também é hora do festival Crossing Border, em Den Haag. A programação deste ano não me interessa terrivelmente, mas ver quem esteve nas outras edições é de babar : Nick Hornby, Holger Czukay, Can, Tindersticks, Douglas Coupland, Lou Reed e Laurie Anderson, Norman Mailer, Zadie Smith...gah. Literatura, música e outras formas de arte, tudo junto. Uau.

(spoken word não é muito minha praia, mas combinado com outras atrações até vai)

Em 2007 os destaques são o Salman Rushdie e o Rufus Wainwright, and I couldn't care less por nenhum dos dois, mas tem Patti Smith, Chuck Palahniuk e Roddy Doyle, que eu curto paca. E putz, o Norman Blake e a Emma Pollock na noite escocesa.

(tem ainda a Soko, SFA e BRMC, mas esses não me tiram de casa)

Hum. Eu ainda não sei se vou, mas fica a dica pra quem for da área.

November 01, 2007

Se bem que tenho que confessar que essa minha determinação toda de "no presents" sente os joelhos tremerem toda vez que vejo o JBox.

Novembro já? Pra onde foi o ano que eu não vi?


Bom, já que na cabeça de todo mundo Natal é época de presentes, é hora de ir lá nos Correios escolher uma cartinha e fazer a sua boa ação anual. Em São Paulo, geralmente as cartas ficam à disposição na agência da Lapa - mas é só ligar que eles informam certinho. Parece que agora eles se encarregam pela entrega dos presentes (ano passado ou retrasado disseram pra minha irmã que não, mas ela argumentou que seria o mínimo que eles poderiam fazer, e no final das contas não cobraram o frete - vocês não devem ter esse problema este ano).

Em casa ninguém liga pra datas comemorativas, então sempre combinamos que em vez de gastar com presentes pra nós mesmos, cada um escolhe uma carta pra atender.

(claro, quem for olhar as cartas vai se deparar com pedidos espertinhos, como notebook ou consoles de videogame, mas também tem gente que pede caderno e lápis pra poder ir à escola, cesta básica, essas coisas - obviamente escolhemos os pedidos razoáveis)

Tinha esquecido como queijo manchego é bom. Damn.

October 31, 2007

Eu acho que teria gostado mais de "The Invasion" se a personagem principal não ficasse choramingando o tempo todo em vez de agir.

"A cidade está sendo bloqueada"
"Não! Mas eu TENHO que buscar meu filho, buá-á-á"

Eu o-de-io gente que choraminga. Homem, mulher, criança, tanto faz.

Fora isso, não é um mau filme. Mas não é o que se propõe a ser. Dizem que é versão do "The Invasion of the Body Snatchers", mas falta terror e tem excesso de "mensagem". Que a humanidade está doente, e seria melhor se fôssemos todos tomados por um esporo alienígena que modifica o DNA humano, Iraque, bla bla bla. Pff.

E não tem as plantas gigantes. Neste, ninguém é substituído por uma cópia. E tem um final dã.

O mais engraçado é quando alguém chega pra Nicole Kidman e recomenda : "Não demonstre emoções".

A vontade é de responder : Demonstrar emoções como, cara-pálida? Botox, remember?

October 29, 2007




Não lembro exatamente o porquê de eu não ter visto "2046" no cinema, mas provavelmente porque foi na época em que eu estava mudando pra cá. Perdi aqui e perdi em SP. Por isso, logo comprei o DVD - que ficou até hoje mofando na prateleira, vejam só.

(ele estava em boa companhia, não se preocupem - os muitos outros que eu comprei e não vi ¬¬)

2046 é o lugar onde nada muda - onde moram os amores perdidos, aqueles que ficam na memória intocados pelo tempo. É o mundo que tantos buscam, e de onde ninguém retorna. Mas um certo Tak finalmente percebe a inutilidade de se apegar a um amor do qual só resta a imagem, um ídolo sem emoções. E volta.

Tak e 2046 são ficção, criação de um escritor solitário, Chow, que conhecemos do belíssimo "In The Mood For Love". Tentando superar o coração partido, ele vive agora sozinho num hotel decadente de Hong Kong, colecionando mulheres que não ama, transformando-as em personagens de suas histórias. Obviamente, Tak é ele mesmo, e 2046 o amor que não consegue esquecer - um mundo lindo, inalcançável e carregado de melancolia.

E como o Wong Kar-Wai sabe explorar a beleza da tristeza! Além de juntar todas as deusas do cinema chinês num filme só (Gong Li, Maggie Cheung, Zhang Ziyi, Faye Wong e Carina Lau) com o charmosérrimo Tony Leung (o homem mais sortudo do mundo?), conta ainda com aquela fotografia maravilhosa de cores saturadas do Christopher Doyle e uma trilha dramática de óperas e boleros : cores fortes e letras doídas que gritam o que os desiludidos sofrem em silêncio.


Siboney (E. Lecuona)

Siboney yo te quiero yo me muero por tu amor
Siboney al arrullo de la palma pienso en ti
Ven a mi que te quiero y de todo tesoro eres tu para mi
Siboney al arrullo de la palma pienso en ti

Siboney de mi sueño si no oyes la queja de mi voz
Siboney si no vienes me moriré de amor
Siboney de mis sueños te espero con ansias en mi caney
Siboney si no vienes me moriré de amor
Oye el eco de mi canto de cristal

Siboney de mis sueños te espero con ansias en mi caney
Siboney si no vienes me moriré de amor
Oye el eco de mi canto de cristal

No te pierdas por entre el rudo Manigual

October 28, 2007

E mais uma coisa : tem gente que tem a sorte imensa de ter uma vocação, e de identificá-la cedo. Eu não fui uma dessas pessoas. But it's ok as well, essa é a pegadinha.

E por coincidência, numa lista que assino veio hoje este link. Que só vem a comprovar que ninguém é um só.

October 27, 2007

Este post aí de baixo foi escrito na verdade pensando na Cris A., que está justamente chegando nessa encruzilhada, a passos longos. Imagino que as mesmas dúvidas a estejam assombrando, por mais que ela já saiba o que quer fazer da vida. Porque ESCOLHER parece tão final, tão definitivo - sendo que não é.

Mas os tempos hoje são outros. A gente tem mais informação, mais possibilidades. E por isso mesmo acredito que qualquer que seja sua escolha, vai dar certo no final. E ela é muito, mas muito mais informada e culta do que eu jamais poderia ser na idade dela. E pelo visto, mais decidida. Certamente vai dar menos voltas na vida do que eu.

Eu tenho VINTE anos a mais ( ! ), e não tomei jeito ainda. Fiz o que contei aí embaixo e muito mais, que se eu ficasse falando aqui gastaria dias. E tenho de admitir que sou feliz mesmo.
Que sim, que você tenha a mesma sorte, menina. Vai ter, eu sei.

Eu acho que a pior angústia da minha vida foi quando tive de decidir que faculdade seguir. Na verdade, a decisão já meio que tinha de ser tomada no final do primeiro colegial, que era chamado de básico. De lá, ia-se para Humanas, Exatas ou Biológicas.
Acabei indo para Biológicas porque havia aquela vaga expectativa de eu vir a estudar Medicina, além do curso ser considerado mais "forte" no geral.

Só que o destino quis que eu tivesse um professor de português jovem e cheio de idéias novas, o que num colégio tradicional (uia, o Dante vai fazer cem anos em breve!) com professores anciões devia ser até subversivo. E subversão foi, no meu caso : ele me lembrou de que eu gostava de escrever (o que eu fazia desde criança), e plantou a primeira dúvida na minha cabeça.

Penso agora que a dúvida não era só minha. Se por um lado meus pais não esperavam menos que uma filha médica (valores, valores, you know), por outro lado minha mãe se formou em literatura e teria sido jornalista ou escritora se não tivesse casado com meu pai e mudado de país. E mesmo meu pai era formado em Educação, tendo trabalhado em outros países e até como pesquisador para a UNESCO no Canadá. Eles achavam lindo eu falar inglês perfeitamente e saber escrever, mas não achavam que isso poderia servir de sustento a alguém.

Meu professor de português adorou eu pensar em prestar pra Letras ou Jornalismo, enquanto minha professora de inglês achou um absurdo - "você não pode se desperdiçar assim!". Ups.

Acabei atirando pra todos os lados, no final. Prestei pra Odontologia na USP e na Unicamp, e Jornalismo na PUC e na Cásper Líbero. Entrei em todas, menos na Unicamp (porque eu não queria ir pra Campinas e rasurei toda a prova). Me matriculei em todas, também. É, a indecisão chegou a esse ponto.

No final das contas, fiz 3 anos de Odonto, uma semana de Jornalismo na Cásper e larguei ambas. Fui dar aulas de inglês na Berlitz e ganhei muuuuita grana. Meu pai ficou puto comigo e de mal por um tempo. E fui pra Cuba com uma banda de amigos meus que foram participar de um festival e fiz uma série de vídeos. Fui convidada a mostrar os vídeos num programa de TV (do Serginho Groisman, na Cultura) como background da entrevista dos meus amigos. Os vídeos eram um lixo, na verdade, mas tive a oportunidade de ver como funcionava um programa de TV, um estúdio.

Resolvi então fazer Rádio e TV na ECA/USP. Ah, pelo menos algo com que me identificava. Mas não sem ter considerado antes Música/Canto, o que continuei estudando informalmente, trabalhando paralelamente. Entrei a fundo, fiz estágio e passei 3 anos da minha vida na Fundação Padre Anchieta - conhecendo gente incrível e fazendo coisas legais. Mas uma hora o métier de TV se mostrou tudo aquilo que eu odeio - networking, lobbying e panelinhas. Desencanei, mas me formei. E acabei tirando o DRT só de locução, que é o que acabei seguindo depois. E até hoje trabalho com isso. Roteiro? Direção? Produção? Pff, no way.

Fui estudar francês em Paris, morando num apartamento lindo alugado no 7ème e explorando a cidade todo dia. Reencontrei uma paixão louca que conhecera em São Paulo, um francês que trabalhava com o grupo catalão de teatro La Fura dels Baus, e fui encontrá-lo em Barcelona. Acompanhei o grupo numa pequena turnê européia, indo parar na Holanda num festival de teatro internacional.

Depois de muitas lágrimas, voltei ao Brasil. Claro que não estava satisfeita com nada do que tinha ali, e voltei a dar aula de inglês. Conheci ali dois dos meus melhores amigos nesta vida, mas logo saí por aí de novo. Fui fazer um curso de língua e cultura coreanas com minha irmã em Seul. Foram 4 meses em que coreano foi o que menos aprendemos. Viajamos pelo Sudeste Asiático - Hong Kong, Tailândia, Malásia - e também pela Austrália.

Voltei pro Brasil e embarquei numa relação destrutiva, meio por burrice, meio por ser boazinha demais. E, de novo ao sabor dos ventos, acabei indo trabalhar numa companhia aérea, em SP. Foi ótimo durante os cinco anos que durou - tanto que só deixei o trabalho quando conheci o Akira, pra vir pra Holanda, casar e fazer este mestrado em Cinema que já terminou.

Ou seja : quando a gente tem 16, 17 anos, não tem a menor idéia de como a vida vai se desenrolar - daí ser a maior injustiça do mundo obrigar alguém a escolher nessa época. E ao mesmo tempo, é um pecado se limitar a uma coisa só quando se tem muitos interesses. Se eu tivesse o conhecimento que tenho hoje naquela época, não teria escolhido nem Odonto, nem Jornalismo, nem Letras. E também não teria escolhido Rádio e TV, e nem Cinema. Na verdade, não faria diferença o que eu tivesse escolhido - podendo viver minha vida toda de novo do jeito que foi, o faria (tirando alguns momentos, claro). Independente do que marquei como opção no vestibular, no final das contas a gente só faz o de que gosta mesmo.

October 26, 2007

Eu sempre gostei do Sleeper, a banda. Quando soube que a vocalista começou a escrever livros, já fui atrás do primeiro, em 2002 : "Goodnight Steve McQueen". Lembro que achei muito bom, surpreendentemente bom.
Mês passado, lembrei de novo da Louise Wener e descobri que ela publicou mais dois romances desde então. Comprei o último a ser lançado, "The Half Life of Stars".
Comecei a ler e já pensei "ela escreve mesmo muito bem", o início já me cativou. No meio do livro, quando os personagens começam a resvalar no clichê, desanimo um pouco. Mas chego ao fim e meus olhos até se comovem um pouco, querendo soltar umas lagriminhas. Mas de repente são meus hormônios, vai saber.

Daniel Ronson, um jovem advogado bem-sucedido, desaparece do nada um dia. Sua família - mãe, irmãs, mulher e bebê - não sabem como lidar com a situação. Claire, a filha do meio, em quem ninguém põe a menor fé, resolve encontrá-lo, e parte numa jornada improvável da Inglaterra aos EUA, onde acaba encontrando outras respostas - para perguntas de que nem lembrava que tinha.

Na verdade, é uma história sobre arrependimentos. Regret. Sobre como lidamos com eles - se os alimentamos a vida inteira, a ponto de não sobrar espaço para mais nada, ou se os encaramos como coisas da vida, que acontecem. E sim, como parte de nós tende a escolher a primeira opção, dando poder a velhos fantasmas que, de outra forma, nunca teriam forças de se levantar. Como às vezes acreditamos nos papéis que nos impõem, sob pena de sentimento de fracasso perpétuo, quando na verdade a infelicidade é não ser o que se é. A velha pergunta "e se...?" nunca esmagou mais a auto-estima de alguém como na família Ronson.

Apesar de escrito por uma mulher, não é chick-lit. É mais algo na linha Nick Hornby, sem as referências musicais e futebolísticas, sobre pessoas desajeitadas, solitárias mas com boas intenções e uma certa esperança de que tudo vai dar certo no final.

Don't we all?

October 25, 2007

Por falar em frio, tava aqui pensando no assunto de carbon footprint. Ou seja, a quantidade de gás carbônico que acabamos emitindo na atmosfera durante os processos do dia-a-dia, direta ou indiretamente.

Por um lado, acho que a footprint aqui de casa acaba não sendo muito pesada : não temos carro, e o modo de deslocamento é de bonde (elétrico), bicicleta ou a pé. Estou tentando não usar demais o aquecimento, e água quente só no banho. No verão, desligo a água enquanto lavo o cabelo, e só ligo de novo para enxaguar. Tentamos não comprar frutas e verduras importadas e fora de estação, que implicam em transporte aéreo. Separamos todos os papéis e vidros para reciclagem, assim como o óleo de cozinha usado e aparelhos eletrônicos descartados, e lavo a louça com a torneira fechada. Também não temos máquina de lavar roupa, e só mandamos para a lavanderia somente quando a sacola está cheia, uma vez a cada duas semanas. Ou mais.

Por outro lado, eu peco bastante nas viagens, eu sei. Só este ano, já fiz duas ou três viagens de avião de longa distância, algumas de curta distância e várias outras de trem, que eu imagino que já tenham emitido mais CO2 do que tentei poupar em casa.
Também continuamos consumindo carne vermelha constantemente, e como os dois trabalham em casa, as electrical appliances funcionam non-stop : luz, computadores, carregadores de celular, etc. Bad humans.

Ainda assim, acredito que o esforço consciente de tentar reduzir a emissão de dióxido de carbono já faça alguma diferença a longo prazo, e pretendo continuar. E, postando aqui, lembrar a vocês disso. Nunca fui do tipo ecochata, nunca me filiei ao Greenpeace ou à PETA, mas eu SEI que não tenho de esperar determinação de governo nenhum para começar a me preocupar com isso. Aliás, achar que o governo de qualquer lugar tenha a responsabilidade de começar ou regular algo é de uma imaturidade sem igual. Não tenho que esperar o "governo" estabelecer que as sacolas de plástico dos supermercados são maléficas ao ambiente - posso começar a levar minha própria mochila às compras por conta própria (o que fazemos sempre aqui). Não tenho que esperar que o "governo" imponha uma multa a estabelecimentos que abusem de água, eletricidade ou plásticos. Eu mesma posso boicotá-los. Eu tenho a autonomia de decidir usar produtos e serviços que afetem menos a camada de ozônio. E assim por diante. Nada do que faço é um grande sacrifício, e tenho certeza de que faz alguma diferença no final.

Tem gente que pensa : "ah, mas só o meu esforço não vai fazer diferença nenhuma". Faz sim, principalmente se você procurar conscientizar os outros (sem pregação, pelamordedeus!!). UMA pessoa que mude os hábitos leva a outras do mesmo círculo, e assim vamos. E se você pensar na quantidade de lixo que você produz, sozinho, num ano, é assustador. Multiplicado pela população do seu bairro, da sua cidade, do seu país? Ufa.

Desde que vim morar aqui na Holanda, que tem as quatro estações definidas, pude perceber o quanto o aquecimento global é realidade, e como ele tem modificado pouco a pouco a situação "normal" do clima. As estações estão atrasadas um mês há pelo menos 3 anos, não tem feito tanto frio nem calor como devia, nem nas épocas certas.

Eu acho que mudanças têm de ser assimiladas pouco a pouco. Tudo é questão de hábito. Quando vou a SP, aquele mar de sacolinhas de supermercado já me fazem sentir péssima, e já estou considerando levar minha mochila de compras daqui pra lá da próxima vez. Tudo bem, eu sei que vou continuar a dirigir meu carro lá, porque em São Paulo tudo é muito longe, e perigoso às vezes - mas vou tentar reduzir ao máximo o uso do carro, e organizar caronas, pra que menos automóveis saiam às ruas.


(tá, agora podem chamar : hippie! Foda-se)

Tá frio e tô com vontade ZERO de sair de casa. Alguém avisa?

October 24, 2007



You know what I hate? Entre outras coisas, gente que se leva muito a sério. O humor e a sátira sempre foram meios muito, muito mais eficazes de crítica social do que discursos empolados e moralistas.

"Shoot'Em Up" é tão, tão divertido e tira tanto, tanto sarro da cultura de armas, violência gratuita e filmes de ação que é imperdível. Do tipo de filme que a platéia aplaude no final.

Tem o Clive Owen esbanjando testosterona, tem a Monica Bellucci lindíssima, tem o ótimo Paul Giamatti fazendo cara de mau. Tem cenas absurdas, muitas referências e muito tiro. Tem um herói de passado misterioso, que adora crianças e animais e uma habilidade com armas sobrenatural. Tão certinho que aperta o cinto de segurança ao roubar um carro e sair fugindo dos bandidos. Tem aquele gostinho de vingança contra os babacas que dirigem cortando os carros no trânsito, que jogam lixo na rua, que bebem café fazendo barulho e estacionam na vaga reservada para deficientes. Tem ônibus que vai para "Wherever" e tem a melhor homenagem ao Chuck Jones e seu Pernalonga que poderia ser feita, com espingardas em armadilhas e vilões que não morrem nunca. Com direito à "Cavalgada das Valqúirias" de Wagner, imortalizada por Hortelino Trocaletra em português como "Mata, mata o toelho, mata o toelho, mata o toelho!". How fitting.

Assistam quando estrear aí, lembrando do vídeo acima. Nunca mais vocês verão cenouras da mesma forma. Eu garanto.

October 23, 2007

E por falar em Orkut, por incrível que pareça é o site de relacionamentos de que eu mais gosto e uso. Sempre que me mandam um convite pra algum outro, eu entro e dou uma olhada, pelo menos. Em 90% dos casos, deleto e tchau. Pra que ter perfil em trocentos sites iguais, com as mesmas pessoas? O Myspace tem a grande vantagem do contato com as bandas, e o Facebook tem aqueles trocinhos todos viciantes e bonitinhos, então mantenho, mas confesso que às vezes até esqueço de entrar...

Um motivo REAL pelo qual o Orkut alegra minha vida : scraps espontâneos dos amigos mais queridos, só pra dizer que que estão com saudades. Vários. Ao mesmo tempo e sem motivo especial. That's love.


(todo mundo junto : awwwwwww!)

(ou então : emoooooo!)

"Ventany! Terrany! Oceani! Kaciuleny!"

*chorando de rir*

O melhor post do dia, no Shoe-Me.

Ah, sim. Custa a bagatela de 200.000 euros. Se quiser vaga na garagem, são mais 18.000. Será que a vaga vai ser triangular também?

October 22, 2007



Maravilhas da arquitetura holandesa. Isso aqui é a planta de um apartamento. Não é digno de um Simbecil?

October 21, 2007

* Aqui não tem restaurante árabe. Claro, tem marroquino, turco, persa e libanês, mas o que eu queria mesmo era um dos que a gente conhece como árabe no Brasil. Que tenha quibe cru, frito e assado, hummus com pão sírio torrado, salada fatouche, esfiha, essas coisas. Mas como não tem, tive que aprender a fazer tudo isso aí. Os primeiros não são problema, mas as esfihas são the tricky part. A massa sempre sai meio de pizza, quando teria de ser um pouco mais elástica e macia. Será que usar receita de focaccia é muita heresia? Também não queria que saísse com jeito de esfiha de lanchonete, que são mais uns pãezinhos recheados do que qualquer outra coisa. Hm.

* Como a gente adora cozinhar, entrei numas de querer usar o mínimo possível de produtos processados industrialmente. Holandês definitivamente não é um povo que cozinha, não tem paladar e adora misturas prontas pra tudo (molho, pizza, purê, omelete, paella, whatever) e todo dia no supermercado eu vejo gente comprando pratos semi- prontos, e eu olho a cara daquilo e acho tão incrivelmente disgusting. Quão difícil é fazer espaguete à bolonhesa, peixe ou arroz? Eu entendo a praticidade - não suja panelas, não tem que picar cebola, etc. Só colocar a caixinha no microondas e pronto - pra quem trabalha e/ou mora sozinho deve ser uma mão na roda. Mas eu fico enjoada vendo aquelas maçarocas. Não sei nem se é bom, porque nunca tive coragem de experimentar.

Enquanto isso, eu vou tentando fazer o que dá from scratch - além da comida de todo dia, que é sempre feita com ingredientes frescos, pão e massa de pizza já faço periodicamente, e pasta está nos planos. Já descobri também que é possível fazer ricota e manteiga em casa, e dizem que quem prova o produto caseiro não quer mais saber do comercial (hippie é a vó). Claro que isso demanda tempo e uma certa habilidade, mas eu curto tentar fazer tudo uma vez pelo menos, só pra ver o resultado. Fora que ter controle de vez em quando sobre a higiene e preparação daquilo que você come é um alívio.

(mas não se enganem, eu adoro um Whopper duplo com queijo, coisas enlatadas, embutidos em geral e batata frita. Sou hipócrita and I love it)

Ainda sobre "Stardust" : o livro e o filme são duas coisas distintas, ainda que relacionadas. Se o filme corta algumas passagens do livro que teriam sido bem interessantes visualmente, também desenvolve com mais humor os personagens que entraram no roteiro. E ainda tem o lance dos dois finais serem diferentes - o do filme é, obviamente, mais adequado a um conto de fadas Grimm. O tom geral do livro é mais melancólico e sarcástico, e não tem grandes explosões e raios de luz. Mas gostei de ambos.

(o Gaiman explica numa entrevista que um dos personagens do livro, uma árvore, é a Tori Amos. Hein?)

October 19, 2007

Nunca coloquei o Joy Division entre minhas bandas favoritas, curiosamente. Triste demais, sombrio demais. Entretanto, há que se reconhecer o poder daquelas linhas de baixo poderosas do Peter Hook e das letras e performance angustiadas de Ian Curtis. Durante a sessão de "Control", esses dois fatores insistiam em me arrepiar os pêlos. O tempo todo. E, percebi, conheço todas. Assim como você.

Num filme onde já se sabe o final, o importante é tentar entender a trajetória humana do mito Curtis, e de onde surgiram músicas fundamentais como "Love Will Tear Us Apart" e "She's Lost Control". O filme do Corbijn é em preto-e-branco - não poderia ser de outra forma. A vida na Manchester do final dos anos 70 dificilmente teria cor.

Fora isso, há todo o contexto. Factory Records, e o inesquecível Tony Wilson, que morreu há pouco tempo. Sex Pistols, Iggy Pop, David Bowie, Buzzcocks, Cabaret Voltaire, A Certain Ratio. O pós-punk nasceu ali, e com ele dezenas de bandas que até hoje influenciam a música contemporânea.

"Control" é um belíssimo filme, sobre uma belíssima pessoa num belíssimo momento. Apesar de ser baseado no livro de Deborah Curtis, viúva de Ian, em nenhum momento toma partido na questão da crise do casamento e do caso com a belga Annik. Fãs e não-fãs, assistam.

(e fechar com "Atmosphere" é quase golpe baixo, eu digo. Já vi que vou passar dias ouvindo Joy Division)