November 17, 2007

Ontem tive meu próprio momento proustiano. Encontrei no supermercado petits pains suédois, que são pãezinhos cortados ao meio e torrados. Lembrei que gostava deles, fiquei toda alegrinha e comprei um pacote.
Cheguei em casa e já fui experimentando um. Hm, crocante e nutty. Mas fiquei meio decepcionada, porque não parecia a mesma coisa. Deixei o pacote pra lá e fui fazer outra coisa.

Mais tarde, fui tirar os queijos da geladeira pra fazer fondue, que era o jantar programado. Gruyère, emmental, e comecei a ralar. No finzinho do emmental, me deu um clique e pensei : hm, isso deve ficar bom com um dos petits pains. Cortei um pedacinho dele e comi com uma das torradinhas suecas.

Era isso! A combinação de sabores me emocionou, e de repente lembrei o porquê : foi a primeira coisa que comi em Paris, na minha primeira vez na cidade, há mais de dez anos. Um fato que eu tinha esquecido completamente, encoberto por tantos outros que se seguiram nesse tempo todo. Mas que, pelo visto, nunca deixou de ter importância.

Em 96, fui a Paris pela primeira vez, para fazer um curso de verão na Sorbonne - Langue et Civilisation Française. As residências estudantis já estavam todas ocupadas, mas consegui alugar um apartamento normal no 7ème através de um anúncio pregado não lembro onde. Cheguei na cidade num domingo, e fui pegar a chave com o administrador, um senhor brasileiro muito tranquilo. Ele foi comigo me mostrar o apartamento e como funcionavam as aparelhagens, código da porta, etc.

Fiquei pasma, porque o lugar que aluguei sem ver era um apê grande, lindo, com quarto, sala, cozinha equipada e banheiro - na verdade poderia ser dividido com mais gente, mas consegui alugá-lo sozinha. Das janelas se via a Torre Eiffel, e a rua tinha a mistura exata de movimento e calma. Não podia querer mais nada.

O administrador então se despediu e explicou que, por ser domingo à noite, ele previu que seria difícil eu conseguir comprar comida naquele horário - e deixou umas coisinhas pra que eu não ficasse sem nada.

Abri a geladeira e encontrei - sim, um pedaço de emmental e um pacote de petits pains suédois. Fiquei comovida com o cuidado inesperado, e senti que aquele período ia ser um dos mais felizes da minha vida.

E assim, na minha primeira noite de verão em Paris, sozinha frente às janelas abertas mostrando a Torre iluminada contra o céu escuro, consciente da minha tremenda sorte de estar ali, tocada pela beleza e gentileza, comi queijo suiço, pão sueco e água - e nada pareceria mais gostoso.

9 comments:

Cris A. said...

É muito reconfortante sentir isso de vez em quando; é bom saber que por mais que você mude ou o tempo passe algumas coisas permanecem.

Gal said...

Lindo! Me emocionou. Ainda estou secando as lágrimas...

Beijos e namarië.

Galaxy Of Emptiness said...

Miss you

Eu penso que... said...

Ahh Annix, que lembrança linda.
Parece coisa de filme. Só falta dizer que fundo musical você escutava?
Uma sorte dessas é para poucos... Quanto tempo você ficou por lá?

PS: Obrigada pela mensagem de melhoras. O "baby" já está melhorando.

Bjs

Beth Blue said...

Puxa, parece coisa de filme mesmo, aliás você anda escrevendo muito bem...que delícia essas memórias do paladar, né? Gostos que inevitavelmente nos remetem a lugares e pessoas...

Passei um memê pra você, não fica braba comigo não tá?!! hehehe (olha lá no meu blog).

CarolinaTait said...

Numa noite de insônia acabei caindo aqui. Se me perguntar qual caminho eu tomei, eu não sei. Juro.
Achei lindíssimo esse texto e tomei a liberdade de visitar alguns outros. Minha surpresa foi ler um texto que vc escreveu sobre a angústia de decidir qual curso seguir e me identificar completamente. Acabei de largar Odonto no 4º ano, penso em estudar journalism and tv productions e tô de malas prontar pra curtir uma temporada em Londres. Foi muito legal ler sobre as voltas que sua vida deu e que, no final das contas, vc nao se arrependeu de nada. Surpresa super agradavel e em boa hora. Fez um bem danado! Nem tudo deve estar perdido pra mim! =)

Obrigada e forte abraço

Annix said...

Puxa, Carolina, que bom saber! Boa sorte e aproveite. Tenha certeza de que se vc seguir fazendo o de que gosta realmente, nunca vai se arrepender mesmo. Essa coisa de estabilidade é mito! Life is short :)

abraço apertado e força aí!

Beth, meme? aaaagh!

Déia, o fundo musical era só o ruído da cidade. Fiquei nesse ap um mês.

Ana, Cris e Gal : :) luv ya gals.

Kris said...

Nossa... Me emocionou ;)
Beijo

Cris said...

Jisuis, só fui ler agora (seis dias de conexão discada atrasaram todasminhas leituras bloguisticas), e pelo jeito num fui só eu que fiquei emocionada depois que li. Snif.