October 27, 2007

Eu acho que a pior angústia da minha vida foi quando tive de decidir que faculdade seguir. Na verdade, a decisão já meio que tinha de ser tomada no final do primeiro colegial, que era chamado de básico. De lá, ia-se para Humanas, Exatas ou Biológicas.
Acabei indo para Biológicas porque havia aquela vaga expectativa de eu vir a estudar Medicina, além do curso ser considerado mais "forte" no geral.

Só que o destino quis que eu tivesse um professor de português jovem e cheio de idéias novas, o que num colégio tradicional (uia, o Dante vai fazer cem anos em breve!) com professores anciões devia ser até subversivo. E subversão foi, no meu caso : ele me lembrou de que eu gostava de escrever (o que eu fazia desde criança), e plantou a primeira dúvida na minha cabeça.

Penso agora que a dúvida não era só minha. Se por um lado meus pais não esperavam menos que uma filha médica (valores, valores, you know), por outro lado minha mãe se formou em literatura e teria sido jornalista ou escritora se não tivesse casado com meu pai e mudado de país. E mesmo meu pai era formado em Educação, tendo trabalhado em outros países e até como pesquisador para a UNESCO no Canadá. Eles achavam lindo eu falar inglês perfeitamente e saber escrever, mas não achavam que isso poderia servir de sustento a alguém.

Meu professor de português adorou eu pensar em prestar pra Letras ou Jornalismo, enquanto minha professora de inglês achou um absurdo - "você não pode se desperdiçar assim!". Ups.

Acabei atirando pra todos os lados, no final. Prestei pra Odontologia na USP e na Unicamp, e Jornalismo na PUC e na Cásper Líbero. Entrei em todas, menos na Unicamp (porque eu não queria ir pra Campinas e rasurei toda a prova). Me matriculei em todas, também. É, a indecisão chegou a esse ponto.

No final das contas, fiz 3 anos de Odonto, uma semana de Jornalismo na Cásper e larguei ambas. Fui dar aulas de inglês na Berlitz e ganhei muuuuita grana. Meu pai ficou puto comigo e de mal por um tempo. E fui pra Cuba com uma banda de amigos meus que foram participar de um festival e fiz uma série de vídeos. Fui convidada a mostrar os vídeos num programa de TV (do Serginho Groisman, na Cultura) como background da entrevista dos meus amigos. Os vídeos eram um lixo, na verdade, mas tive a oportunidade de ver como funcionava um programa de TV, um estúdio.

Resolvi então fazer Rádio e TV na ECA/USP. Ah, pelo menos algo com que me identificava. Mas não sem ter considerado antes Música/Canto, o que continuei estudando informalmente, trabalhando paralelamente. Entrei a fundo, fiz estágio e passei 3 anos da minha vida na Fundação Padre Anchieta - conhecendo gente incrível e fazendo coisas legais. Mas uma hora o métier de TV se mostrou tudo aquilo que eu odeio - networking, lobbying e panelinhas. Desencanei, mas me formei. E acabei tirando o DRT só de locução, que é o que acabei seguindo depois. E até hoje trabalho com isso. Roteiro? Direção? Produção? Pff, no way.

Fui estudar francês em Paris, morando num apartamento lindo alugado no 7ème e explorando a cidade todo dia. Reencontrei uma paixão louca que conhecera em São Paulo, um francês que trabalhava com o grupo catalão de teatro La Fura dels Baus, e fui encontrá-lo em Barcelona. Acompanhei o grupo numa pequena turnê européia, indo parar na Holanda num festival de teatro internacional.

Depois de muitas lágrimas, voltei ao Brasil. Claro que não estava satisfeita com nada do que tinha ali, e voltei a dar aula de inglês. Conheci ali dois dos meus melhores amigos nesta vida, mas logo saí por aí de novo. Fui fazer um curso de língua e cultura coreanas com minha irmã em Seul. Foram 4 meses em que coreano foi o que menos aprendemos. Viajamos pelo Sudeste Asiático - Hong Kong, Tailândia, Malásia - e também pela Austrália.

Voltei pro Brasil e embarquei numa relação destrutiva, meio por burrice, meio por ser boazinha demais. E, de novo ao sabor dos ventos, acabei indo trabalhar numa companhia aérea, em SP. Foi ótimo durante os cinco anos que durou - tanto que só deixei o trabalho quando conheci o Akira, pra vir pra Holanda, casar e fazer este mestrado em Cinema que já terminou.

Ou seja : quando a gente tem 16, 17 anos, não tem a menor idéia de como a vida vai se desenrolar - daí ser a maior injustiça do mundo obrigar alguém a escolher nessa época. E ao mesmo tempo, é um pecado se limitar a uma coisa só quando se tem muitos interesses. Se eu tivesse o conhecimento que tenho hoje naquela época, não teria escolhido nem Odonto, nem Jornalismo, nem Letras. E também não teria escolhido Rádio e TV, e nem Cinema. Na verdade, não faria diferença o que eu tivesse escolhido - podendo viver minha vida toda de novo do jeito que foi, o faria (tirando alguns momentos, claro). Independente do que marquei como opção no vestibular, no final das contas a gente só faz o de que gosta mesmo.

4 comments:

Cris A. said...

:)


Que eu tenha a sua sorte!!

bjs!

muié said...

Bendito trampo na companhia aérea! _o/

Antonio Fontelles said...

"A história da sua vida em 60 segundos."
Adorei!
Lembre-se sempre: é a soma de tudo o que vc já fez, tudo o que tem em mente e tudo o que planeja ainda fazer, que faz de vc a pessoa especial e única que vc é.
Beijo!

Bebete Indarte said...

Anna, simplesmente a-do-rei que nem o Antonio falou a história da sua vida em 60 segundos, hahaha.
Parece que você tem 400 anos, no bom sentido...todos os conhecimentos que teve, toda a experiência por que passou, obrigada por compartilhar aqui isso.
Já me perguntei várias vezes, se está certo esses métodos de ensino, que visam uma "profissão" no final, pro fim dos séculos.
Em nome de Deus, como uma pessoa jovem, antes de entrar na faculdade pode saber o que realmente quer na vida pros próximos 30 anos??? O que a fará feliz, realizada, bem sucedida, dentro dos princípios dela?
Quando tinha 12 anos fiz aquele teste vocacional na escola, e pra mim o resultado foi um desastre, pois meu ecletismo foi ao extremo, claro na área de humanas, direito/letras/jornalismo/artes/educação física/blablabla...fiquei mais perdida do que nunca.

Mas a gente "cresce" e percebe que a vida dá muitas voltas, eu admiro pessoas que sabem o que querem aos 20, aos 30 a mesma coisa, e aos 40 são felizes e realizadas, mas eu tb não sou uma pessoa assim, e no fundo toda nossa vida/educação, conhecidos fazem parte de nossa experiência, no final o que importa é saber apreciar nossa vida, como ela é, e mudar o que não tá legal, ser flexível.
E como o Antonio disse também, você é muito legal, tem muitos talentos, e como Antoine diz: O essencial é invisível aos olhos, só se vê bem com o coração.
O resto, é o resto.
(virou uma nova minha, desculpa)...
Beijos coreanos, hihihi